Poeta castrado não!
(Ary dos Santos, 07Dez1936 - 18Jan1984
Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
Transcrito do blog Ad Litteram.
Sem dúvida, Ary dos Santos deixou uma panóplia diversa de poesia, e ao seu jeito, nunca foi um poeta castrado.
ResponderEliminarObrigado amigo A João Soares por trazer aqui este belo poema do Ary dos Santos.
Abraço do Beezz
Vem tomar um copo ao Cadeirão da Malta que há novidades frescas.
ResponderEliminarE Portugal está a necessitar de muitos homens que não sejam castrados e tenham «voz sonora» para acordar o povo da letargia em que tem sido abismado por variados truques dos políticos de hoje e de sempre.
ResponderEliminarAbraços
A. João Soares