05 março 2009

INDIGENTE MORIBUNDO!

Não me chames que já não te ouço,
Já é tarde, muito tarde
E eu já desisti de caminhar,
A Lua também já dorme
Neste corpo sem luar!
Os abraços que não dei
São fragmentos de ar pestilento,
Da mendicidade que calei
E se perde agora no tempo!
Sobram apenas os risos de desdém,
Nos olhares que me vestem sem me ver
E dobram somente os sinos por ninguém
Na pressa de um novo amanhecer!
Sinto no ar o cheiro nauseabundo,
Dos detritos que conspurcam o meu corpo,
Liberto-me enfim deste mundo
Já não choro, já não me minto e já não sofro...
Sou apenas um indigente moribundo
Em digressão pelo seu derradeiro sopro!


Ana Martins
Escrito a 3 de Março de 2009

4 comentários:

  1. Um poema forte. Onde o desalento se manifesta, despido de esperança...

    Beijinhos

    Mário

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  2. Poesia é arte, o saber da escrita o fazer chegar a mensagem.
    Parabéns aos poetas do Povo.

    Bjs

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  3. Cara Ana Martins,
    Um retrato feito com muita sensibilidade de muitos de nós, perante a crise que vai destruir a vida a muita gente, devida à ganância daqueles que, tendo perdido o sentido da honra, do respeito pelos outros e da própria dignidade, se deixaram arrastar pela vil ambição descontrolada que tudo devorou.
    Sejam abatidos sem piedade todos quantos usaram de formas indignas, imorais, para explorar os pobres companheiros de viagem terrena.
    Parabéns pelo poema.
    Abraço
    João Soares

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  4. É verdade! A esperança também não tem futuro. E, para minha satisfação, ainda bem. Ainda bem, porque enquanto há esperança estamos tolhidos pelo bafo da sorte e esquecemo-nos da mais sagrada: a Morte. Esta sim. Não tem futuro, mas é o nosso futuro.
    Respeitá-la. Amá-la e nunca tentar comprá-la. Ela aceita-nos de mãos limpas e braços abertos. Não vai querer o nosso currículo, se moribundos, nauseabundos ou outro adjectivo qualquer, ela não vai receber-nos de outra forma, que não seja igual para todos. Vai receber-nos brilhantemente. Como heróis do tempo em que dela estivemos ausentes.

    Mais um brilhante poema, Ana, brilhante.

    David Santos

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