04 março 2011

A luz extingue-se lentamente




O frio acendeu-se na desolação dos corpos


a terra já não produz o sémen da colheita


nem a foice corta o centeio amarelecido


o homem já não grita, liberdade


já todos o esqueceram perto do declive



Os barcos fazem escala na maré, ora-se


a um Cristo feito de barro, de cabelo comprido,


espinhos cravados, sempre com as mesmas lágrimas


presas nos olhos feitas em sangue



Os peixes já não morrem pela boca


imobilizam-se no sono antigo da pesca


o xaile negro esvoaça sobre o sargaço crestado


amalgamado com o lixo que dá à costa



A luz extingue-se lentamente


na cadeia de Peniche,


no interior da mão envelhecida


o sangue ainda escorre pelas paredes



Apaguem as velas…


antes que a densa escuridão ouça os meus passos.





Conceição Bernardino

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