25 novembro 2008

Gritos açamados

Ouvi um ruído, muito forte vindo por entre as fendas da porta daquele quarto. Quis espreitar mas não tive coragem, as agressões eram constantes.
Os gemidos soltavam-se em almofadas abafadas de despesismo, os insultos e as pancadas, pareciam sussurros mal definidos para silenciar a monstruosidade de uma cobardia insuportável.
Os dias passavam e o ruído aumentava, os berros faziam-se ouvir pela casa toda juntamente com a violação. Em seguida voltava a pancadaria de qualquer forma, de qualquer jeito.
O corpo de minha mãe já se confundia com um daqueles monstros da banda desenhada.
Já não suportava mais ouvir, aquelas palavras que minimizavam a dor, na sede de um temor aterrador. Encobriam a severa delinquência, daquele homem que parecia tão carinhoso a quem eu chamava de pai.
Os anos passavam as denuncias não chegavam, as desculpas mantinham-se, eu fui crescendo no silêncio que se conturbava com a brutalidade, daquele quarto.
A idade passou, não me lembro de ter sido criança...
Ainda contínuo a ouvir os gritos da minha pobre mãe açamados, nas mãos daquele ser repulsivo.

Esta é uma história verídica contada na primeira pessoa, de alguém que não posso expor o nome...
Que me pede para que nunca calem estas barbaridades!


Conceição Bernardino

1 comentário:

  1. Infelizmente, muitos casos de brutalidade, houveram nos tempos que os homens pensavam ser legítimos donos das mulheres e que poderiam fazer com as mesmas, tudo os que lhes desse na gana!
    Os tempos mudaram, e hoje a violência,aínda que presente,sobre diversas capas, já não será pelo menos quantitativamente como outrora!
    Felizmente, a lei abriu uma porta, para que sejam denunciados estes casos de brutalidade.

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