07 janeiro 2008

Baixa de Cascais ao abandono!

Numa carta ao director do Público escrita por Ana Cornélio e publicada hoje, com o título «A desertificação de Cascais» consta que a baixa já tem os seus dias contados.
Segundo a autora estão a fechar lojas atrás de lojas e só abrem lojas chinesas, a partir das 16h00 Cascais não tem ninguém e começa a haver graffiti nas montras e paredes mesmo no centro.

Em tempos, junto à Baía, em frente à câmara municipal via-se gente aos montes e hoje não há ninguém, e mesmo no Verão são poucos os que ali circulam. Alguns moradores do centro têm medo de sair à noite pois não há ninguém nas ruas. A associação empresarial tem tido muito boa vontade em ajudar, mas nem sabe o que fazer.

O presidente da câmara é elogiado por estar a fazer a recuperação de edifícios antigos, mas, independentemente das pressões que a isso o empurram, o efeito dessas medidas não virá a tempo de salvar o comércio que está a morrer.

A autora da carta considera que o trânsito é a principal causa da desertificação, principalmente depois da via de escoamento da Marginal que permite a passagem de muito carro, mas não entram nem param em Cascais.

A autora evidencia uma boa perspicácia ao atribuir ao trânsito a principal causa. Se não for a principal é uma das primeiras causas. Há poucos anos, quem viesse pela marginal e quisesse ir para a saída oposta (ocidental), era encaminhado pela Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, Baía, Cidadela e aí podia escolher ou a Avenida Rei Humberto II de Itália, ou a Avenida da República. Hoje, devido aos condicionamentos impostos, entre a Alameda e a Cidadela, essa hipótese está interdita e a única maneira de circular entre os extremos Leste e Oeste é a Avenida 25 de Abril que contorna a vila antiga, sem sequer permitir virar à esquerda, ao ponto de um visitante vindo pela marginal que queira dirigir-se à zona da Cidadela (muito perto da rotunda Sá Carneiro), tem que percorrer a periferia da vila quase em 360 graus, pois tem de seguir toda a Av 25 de Abril (quase dois quilómetros e ao encontrar a Av da República virar à esquerda e percorrer mais um quilómetro).

Os autarcas esquecem que as vias de comunicação são os vasos sanguíneos da economia e esta serve os cidadãos, consumidores e trabalhadores. E com as veias, artérias e vasos capilares não se deve brincar! Não se pode estrangular a corrente sanguínea de uma localidade de ânimo leve, por capricho ou porque se acordou com uma ideia que depois não foi analisada por todos os lados, tendo em conta todos os factores condicionantes e implicações nos vários sectores da vida das populações.

Como disse num post recente, não existe mentalidade de planeamento nos serviços públicos, o que é muito grave porque, sem planeamento e estudo cuidado das decisões, seguido de uma organização adequada à acção e uma programação tendente à eficiência e economia da concretização, não haverá uma gestão correcta dos recursos e não se defendem os interesses das populações, que devem ser o objectivo iniludível das instituições e dos serviços públicos.

6 comentários:

Beezzblogger disse...

Concordo plenamente com a análise da autora da carta, aliás é o que se tem verificado a nível nacional, com as mudanças no trânsito das grandes e médias cidades em prol muitas vezes do estacionamento desenfreado dos automobilistas. Aqui no Porto, à uns anos (desde 1994/95) que se começaram a implementar Parques de estacionamento num convite ao transporte individual pela mão do então presidente da câmara Fernando Gomes, onde se cortaram corredores de BUS, em prol do transporte individual, sofrendo os transportes públicos, nomeadamente os STCP com estas mudanças, pois nalguns sítios era uma perícia brutal para se conduzir um autocarro pelas artérias da Invicta (na altura eu era Motorista de serviço público daquela empresa, e só deus sabe o que passei muitas das vezes).

Por outro lado esta desertificação deve-se também ao facto, do favorecimento dos grandes centros comerciais, em detrimento do comércio tradicional, ainda agora a compra de uma cadeia de supermercados pela SONAE, e a consequente proliferação de mais uma ou duas dúzias de Hipers pelo território nacinal.

Com estas Políticas, do grande capital, sofremos todos, e cascais não foge à regra. Como me lembro, em tempo de tropa passear pela encosta, pela cidadela e por cascais, onde a noite era bem mais segura que nos tempos que correm.

Parabéns pelo Post, e um abraço do Beezz

A. João Soares disse...

São os factores que enumera e também os sonhos irrealistas de autarcas que pensam que fazem bem aos peões em reservar áreas só para eles evitando o acesso de carros. Só que isto tem que ser bem pensado e não basta ter um sonho e acordar com uma «boa ideia» às ideias não basta serem lindas, é preciso que sejam úteis e práticas. Na parte antiga de Cascais os peões não sentem interesse em passear. E dentro em pouco só a conhecem os velhinhos que teimam em lá viver, porque sempre lá viverem e não querem mudar-se. O fluxo de trânsito desva as pessoas da parte antiga e leva para as urbanizações modernas, onde não há comércio e os moradores têm de fazer as compras perto dos locais de trabalho - Lisboa e arredores - ou ir às grandes superfícies menos afastadas.
Com cabeças tão desprovidas de sensatez é difícil ser optimista quanto ao futuro.
Abraço

Mac Adriano disse...

Só não percebo uma coisa: "não se defendem os interesses das populações, que devem ser o objectivo iniludível das instituições e dos serviços públicos". Onde? Em Portugal? Nunca tinha reparado que o objectivo era esse.

A. João Soares disse...

Mac Adriano,
Realmente, nem com lupa se vê esse objectivo a ser procurado. Mas a Democracia que dizem nortear os nossos «maiores» leva a supor que essa a terá sido a finalidade da sua candidatura aos votos!!!
Que grande circo!!!
Abraço

Maria Faia disse...

Amigo João Soares,

Não conheço a realidade de Cascais mas, pelo que ficou dito no seu post, longe vão os seus tempos de ouro. Lamentavelmente, constrangimentos como os que refere vão sendo realidade um pouco por todo o país porque, como diz, e bem, a mentalidade deste povo ainda não está formatada para o planeamento, essencial ao sucesso das decisões e iniciativas.
Os poderes públicos e políticos decidem e agem, na maioria das vezes, em função de interesses que, podendo até ser públicos, não são equacionados com outros de igual ou idêntica natureza e, depois, é o que se vê.

Um abraço amigo, com votos de Bom Fim de Semana,

Maria Faia

A. João Soares disse...

Maria Faia,
As decisões aqui referidas podem ter sido tomadas com boa intenção a de preservar a parte mais nobre da vila à poluição dos carros. Mas de boas intenções está o inferno cheio, e esqueceram que as condições geográficas e urbanísticas não permitem essas restrições de trânsito e o resultado foi o corpo deixar de ter irrigação sanguínea por terem cortado a aorta. Agora o comércio queixa-se, como diz a carta que referi.
Falta aos decisores a indispensável visão do conjunto e a capacidade de antever os efeitos daquilo que vão decidir. Depois aparecem as más consequências das medidas erradas e contraproducentes.
Abraço

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Atribuído Pela nossa querida amiga e colaboradora deste espaço, a Marcela Isabel Silveira. Em meu nome, e dos nossos colaboradores, OBRIGADO.

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