04 agosto 2007

A CULTURA DO «SLOW DOWN

Para ler e meditar com atenção

Os processos globalizados causam-nos a nós (portugueses, brasileiros, argentinos, colombianos, peruanos, venezuelanos, mexicanos, australianos, asiáticos, etc.) uma ansiedade generalizada na busca de resultados imediatos.

Consequentemente, o nosso sentido de urgência não surte efeito dentro dos prazos lentos dos suecos.

Os suecos debatem, debatem, realizam "n" reuniões, ponderações, etc.

¡E trabalham! Com um esquema bem mais “slowdown". O melhor é constatar que, no fim, isto acaba por dar sempre resultados no tempo deles (suecos) já que conjugando a necessidade amadurecida com a tecnologia apropriada, é muito pouco o que se perde aqui na Suécia.

1. A Suécia é do tamanho do estado de São Paulo (Brasil), com 450.000 Km2

2. A Suécia tem apenas nove milhões de habitantes.

3. A sua maior cidade, Estocolmo, tem apenas 800.000 habitantes (compare-se com Paris, Londres, Berlim, Madrid, mesmo Lisboa…; ou cidades balneares como Mar del Plata, Argentina, onde vivem permanentemente 1 milhão de pessoas, ou ainda a cidade de Rosário, Argentina, com três milhões).

4. Empresas de capital sueco: Volvo, Skandia, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare , etc. Nada mal, ¿nein? Para se ter uma ideia da sua importância basta mencionar que a Volvo fabrica os motores de propulsão para os foguetões da NASA.

Os suecos podem estar enganados, mas são eles que me pagam o salário. Devo referir que não conheço nenhum outro povo com uma cultura colectiva superior à dos suecos.

Vou contar-vos uma pequena história, para ficarem com uma ideia:

A primeira vez que fui para a Suécia, em 1990, um dos meus colegas suecos apanhava-me no hotel todas as manhãs. Estávamos em Setembro, já com algum frio e neve.

Chegávamos cedo à Volvo e ele estacionava o carro longe da porta de entrada (são 2000 empregados que vão de carro para a empresa). No primeiro dia não fiz qualquer comentário, nem tão pouco no segundo ou no terceiro.

Num dos dias seguintes, já com um pouco mais de confiança, uma manhã perguntei-lhe:

"¿Vocês têm aqui lugar fixo para estacionar? Chegamos sempre cedo e com o parque quase vazio estacionas o carro mesmo no seu extremo…

E ele respondeu-me com simplicidade:

“É que como chegamos cedo temos tempo para andar, e quem chega mais tarde, já vai entrar atrasado, portanto é melhor para ele encontrar um lugar mais perto da porta. ¿Não te parece?"

Imaginem a minha cara! Esta atitude foi a bastante para que eu revisse todos os meus conceitos anteriores.

Actualmente, há um grande movimento na Europa chamado "Slow Food". A “Slow Food International Association”, cujo símbolo é um caracol, tem a sua sede em Itália (o site na Internet é muito interessante.
www.slowfood.com)

O que o movimento Slow Food preconiza é que se deve comer e beber com calma, dar tempo para saborear os alimentos, desfrutar da sua preparação, em família, com amigos, sem pressa e com qualidade.

A ideia é contraposição ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida.

Verdadeiramente surpreendente, é que este movimento de Slow Food está a servir de base para um movimento mais amplo chamado “Slow Europe” como salientou a revista Business Week numa das suas últimas edições europeias.

Na base de tudo isto está o questionamento da “pressa” e da “loucura” gerado pela globalização, pelo desejo de "ter em quantidade" (nível de vida) em contraponto ao "ter em qualidade", “Qualidade de vida" ou “Qualidade do ser".

Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, ainda que trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que os seus colegas americanos e ingleses. E os alemães, que em muitas empresas já implantaram a semana de 28,8 horas de trabalho, viram a sua produtividade aumentar uns apreciáveis 20%.

A denominada "slow attitude" está a chamar a atenção dos próprios americanos, escravos do "fast" (rápido) e do "do it now!" (¡faça já!).

Portanto, esta "atitude sem pressa" não significa fazer menos nem ter menor produtividade.

Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com "mais qualidade" e "mais produtividade", com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress.

Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer dum belo ócio e da vida em pequenas comunidades.

Do "aqui" presente e concreto, em contraposição ao "mundial" indefinido e anónimo.

Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do quotidiano, da simplicidade de viver e conviver, e até da religião e da fé.

SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO MENOS COERCIVO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM PRAZER, O
QUE MELHOR SABEM FAZER

É saudável reflectir sobre tudo isto. ¿Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe" e “A pressa é inimiga da perfeição" merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada?

¿Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, Estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa" até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder “qualidade do ser"?

No filme "Perfume de Mulher" há uma cena inesquecível na qual o cego (interpretado por Al Pacino) convida uma jovem para dançar e ela responde: "Não posso, o meu noivo deve estar a chegar". Ao que o cego responde: “Num momento, vive-se uma vida", e leva-a a dançar um tango. É o melhor momento do filme, esta cena que dura apenas dois ou três minutos.

Muitos vivem a correr atrás do tempo, mas só o alcançam quando morrem, quer seja de enfarte ou num acidente na auto-estrada por correrem para chegar a tempo.

Ou outros que, tão ansiosos para viverem o futuro, esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que realmente existe.

O tempo é o mesmo para todos, ninguém tem nem mais nem menos de 24 horas por dia.

A diferença está no que cada um faz do seu tempo. Temos de saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, “A vida é aquilo que acontece enquanto planeamos o futuro".

Parabéns por teres conseguido ler esta mensagem até ao fim.

Decerto haverá muitos que leram só metade para "não perder tempo" tão valioso neste mundo globalizado.

6 comentários:

Beezzblogger disse...

Oh minha querida Naty, que belo texto, e não é que eu sou empregado (graças a Deus) dos SUECOS, na SCANIA, que adquiriu em Abril deste ano o seu importador aqui em Portugal, adquiriram sem despedir um trabalhador (250 no total) fizeram-no com a promessa de que era importante manter esta Marca no nosso País, pois o importador estava "Doente" e á beira da falência.

Para os meus colegas mais cépticos, vou-lhes enviar este texto, divulgá-lo ao mais alto nível dentro da minha empresa, (pois tenho carta branca para falar directamente com o seu director, a qualquer altura) mas é assim desde que chegou, desde o mecânico, ao gerente ele fala com todos, ouve-nos a todos, e toma decisões em conjunto de todos.

Esta mentalidade agora implantada por "eles", já vem surtindo efeitos, mesmo nos mais renitentes.

Posso dizer, que gosto do seu "Slow Down", pelo menos, tomam decisões bem ponderadas que surtem efeitos sólidos e duradouros.

Para ter uma ideia, em Maio deram aumento aos trabalhadores (2,5%) e isso era a prioridade, pois depararam-se com uma empresa empenhada (todos nós) e não tínhamos aumentos salariais desde à 2 anos, e essa era uma fonte de desmotivação, e a sua política passa pelos aumentos anuais mais prémios, numa política sustentada e coerente.

Beijinhos Naty e muito obrigada por este texto

Beezzblogger

OBS: Diga-me quem é o autor dele, e mande-me por e-mail.

Slow Food disse...

O Slow Food tem um site de suas ações no Brasil, queremos te convidar para conhecer site e, se gostar, ajudar a divulgá-lo:
www.slowfoodbrasil.com

Atenciosamente,
Equipe Slow Food Brasil

Maria disse...

Natty, o tempo tornou-se precioso, sim, li o teu post até ao fim, tenho também o tempo como inimigo, devíamos recuperar qualidade de vida e tempo de DAR aos outros. Tempo de partilha e de intervenção. Infelizmente a sociedade competitiva em que vivemos causa uma embriaguez de pressa, de comunicações, de velocidade, de multi-processamento diário que já atinge as nossas crianças, mesmo em férias. Só pessoas fortes e convictas conseguem o milagre de não fazer nada juntas... Recuperar coisas simples e delicadas, harmoniosas e exigentes de equilíbrio. Como ler um livro, olhar para o mar, ser simples. Um abraço pela chamada de atenção.

avelaneiraflorida disse...

Tinha já recebido, por mail, este texto!

Ainda bem que ele aqui aparece, permitirá que muito mais pessoas possam LÊ-LO!!!!!
E VALE A PENA...depois por em prática... é que nós passamos pela vida a correr...agora mais do que nunca!!!!

Zé Povinho disse...

Li tudo, conheço bem a mentalidade nórdica e admirei a clareza do texto. Muitos falam dos exemplos nórdicos, mas nunca das realidades, o que é uma pena.
Abraço

C Valente disse...

excelente , são culturas e comportamentos diferentes dos latinos,
Pensão mais no colectivo
Saudações

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