25 junho 2008

Código de Honra dos Portugueses

Caríssimos, gostaria de aqui vos deixar um texto de um amigo que foi escrito à já quatro anos, mas muito interessante e que nos leva a meditar! Julgo que se ajusta dentro da temática do post precedente, de um texto de Mia Couto, aqui trazido pelo João Soares.

"Há quase trinta anos, numa das diversas entrevistas de rua a cidadãos anónimos, foi feita a seguinte pergunta a um jovem empregado de um restaurante algarvio: o que gostavas de ser? A resposta foi imediata e sem hesitações: gostava de ser “estrangeiro”.
É tradicional, na nossa sociedade, considerar que o que é estrangeiro é que é bom. Mas não ficamos por esta simples afirmação. Acrescentamos quase sempre “ e até é isso verdade” ! ! ! . . . Em contraste, certos povos, concretamente os japoneses, nas visitas que realizam, tiram fotografias a tudo, sorriem sempre e . . . continuam a preferir os produtos de empresas japonesas.
Igualmente afirmamos que somos bons improvisadores e apresentamos muitos e indiscutíveis exemplos que confirmam o que afirmamos.
Não são de todo verdade estas duas afirmações, mas dão-nos razões para continuarmos, na maior parte dos casos, a apreciar o que é estrangeiro e a improvisar no que devia ser devidamente planeado.
Recordamos os sucessos históricos da bem planeada conquista de Ceuta, do esquema táctico das nossas forças militares na Batalha de Aljubarrota, do carácter altamente científico dos Descobrimentos dos Portugueses preparados na Escola Náutica de Sagres sob a orientação de . . . um filho de uma rainha de origem britânica, o Infante D. Henrique. A conjura de 1640, os planos de desenvolvimento do Marquês de Pombal e os Planos de Fomento dos anos sessenta do século passado são alguns marcos que deveriam convencer-nos de que vale a pena planear. Valerá? Vejam como decorrem sempre bem as inaugurações, após oito ou quinze dias de intensos trabalhos, ocupando as 24 horas, dos dias que antecedem essa inauguração, mesmo que seja de estádios para o Euro 2004 ! ! ! . . .
Em contraste, apresentamos o comportamento de povos de culturas bem diferentes da nossa, de um modo particular, certos países do Norte da Europa e do Extremo Oriente.
Deveremos ser tentados a assimilar tais culturas? Parece-me utopia tal tentação. Aliás seria contra a nossa própria natureza. Talvez até tenhamos alguma vantagem em não abandonar algumas das nossas características. Vejamos. Um japonês necessitaria de regressar ao Japão para “rever todo o processo de avaliação, em face dos valores apresentados por nós não corresponderem aos cálculos que tinha feito na preparação da reunião que estávamos a realizar”. Nós não correríamos o risco de regressar a Portugal e deparar com o adiamento definitivo de um outro encontro. Faríamos “uma directa” nessa noite e, no dia seguinte, “em função do que imaginaríamos ser os cálculos dos nossos interlocutores, apresentaríamos as nossa novas propostas”. O tempo é o único bem irrecuperável e as oportunidades não se podem desperdiçar . . . Somos assim, e ainda bem!
Bom, mas será assim que deixaremos de estar na cauda da Europa? Definitivamente que não. Há que mudar a nossa cultura, a nossa mentalidade no que consideremos essencial. Poderemos continuar a chegar tarde a encontros de trabalho com cidadãos de outros países onde a reunião das 10 da manhã nunca seja antes das dez, embora não se saiba quando efectivamente se inicia. Mas não podemos deixar de respeitar a “pontualidade britânica”, quando ela faz parte da maneira de estar dos nossos interlocutores. Não podemos ir confiados nas nossa capacidade de improvisar para reuniões de grande responsabilidade com outras pessoas cuja cultura lhes impõe a preparação cuidadosa das suas actuações. Seremos condenados a ir a reboque deles. Não podemos continuar a apreciar doentiamente os produtos estrangeiros, se análogos existirem de origem nacional, pois, de contrário, o efeito multiplicador nunca se verificará em Portugal, com o grave risco do desemprego.
Então o que é essencial que mude? Apenas a nossa inércia em não fazer “a aprendizagem e estudo dos hábitos, costumes e identificação cultural dos nossos interlocutores, bem como de umas tímidas palavras de saudação e de circunstância, certamente proferidas num sotaque de fazer arrepiar, mas que caem bem e são sinónimo de consideração e estima”.
Continuemos “Lusitanos”, já não apenas romanizados, europeizados, mas conhecedores das mais diversas culturas universais. Estas serão as caravelas e os instrumentos náuticos que nos ajudarão a descobrir Novos Mundos no domínio da economia, da arte, da cultura, em suma, do desenvolvimento e do bem-estar do nosso País."

Maia, Janeiro de 2004
José Gomes Dias Leitão

4 comentários:

Maf_ram disse...

Assim somos nós, portugueses sem nada que nos orgulhe de o ser...

Gostei de passar por aqui...

A. João Soares disse...

E quando copiamos do estrangeiro trazemos soluções que eles já puseram de lado por terem encontrado melhor. Nem copiar sabemos!
E há tantos exemplos de desenvolvimento, como na Irlanda, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Suécia, etc
Para mudar seria bom que o ensino fosse eficiente.
Um abraço
A. João Soares

Odele Souza disse...

Acho que qualquer um de nós gostaria de ter motivos para nos orgulhar de nossa nacionalidade e ao sermos perguntamos, responder em alto e bom som:

- Eu sou português!ou
- Eu sou brasileira!

Pena raramente isto ser possível.

Um abraço.

Mentiroso disse...

De nada serve de berrar «Eusou isto ou aquilo». Melhor não ter orgulho do que nada vale ou tê-lo daquilo que vale.
Em Portugal passa-se o tempo a copiar da estrumeira ao lado porque nos é escondido o que se passa em países mais avançados, somos desinformados. A solução também não é copiar, mas adaptar, para que se atinja o progresso em causa no texto sem cair nas inconveniências lá citadas.

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