22 janeiro 2007

Naquele tempo, neste tempo.

No meu tempo (detesto esta frase), sim porque eu já posso dizer “no meu tempo”. No meu tempo em que era um simples garoto de primária, quando todas as freguesias tinham uma escola primária que era sempre ponto de referência e de encontro entre o “catraiame” que ia jogar à bola (note-se que naquele tempo a bola era sempre do mais gordo e só por essa razão ele era escolhido para ser capitão de equipa). Naquele tempo, em que a professora, salvo raras, mas muito raras excepções, era sempre aquela senhora imponente, velha, gorda e com buço (leia-se bigode). Naquele tempo em que os horários eram cumpridos e nós íamos para a escola com pouco mais que um pão com manteiga e muita alegria, principalmente o gordo, visto que era o dono da bola. Naquele tempo, a professora, apesar de feia, era sempre alguém importante, venerada e que impunha sempre a sua vontade mesmo contra a vontade da maioria (éramos crianças acima de tudo), numa espécie de ditadura silenciosa e submissa entre professor e alunos; com o pacto e o acordo dos pais, muitas vezes devido a serem iletrados e porque “no tempo deles” o respeito era algo enraizado no código genético. Naquele tempo uma bofetada, daquele ser superior do giz, não precisava de ser justificada e o melhor era mesmo ficar calado ou então a dose era repetida pelos pais. Escola de aldeia e provinciana.
Qualquer insulto dirigido à mutante professora era condenado como se de um pecado capital se tratasse, independentemente se eram aplicadas pelas mãos da própria dita cuja se pelos seus apoiantes limpadores de salas e casas de banho. Naquele tempo…Qualquer anarquista (não, não sou) sentir-se-ia mal naquele ambiente.
Era a regra do ensino pela insistência e pela pancada. No final do dia éramos como que arremessados para o trabalho no campo, o que implicava muitas vezes o incumprimento das tarefas impostas pela ditadora, tão bem apelidados de “trabalhos de casa”. Ok, diga-mos que de vez em quando a malta supostamente “esquecia” porque não teve vontade ou preferiu ir ter com os amigos. Qualquer esquecimento ou erro eram logo “corrigidos” e “despachados” com um bom par de estalos. Naquele tempo eram usuais os rostos avermelhados e as palmas das mãos doridas na hora do recreio (sagrada hora, não existe criança nenhuma no mundo que não ache o mesmo). Naquele tempo qualquer roupa rasgada ou suja era condenável por parte dos nossos pais. O castigo aplicado levava a que qualquer tipo de criança pensasse da próxima vez se iria ou não voltar a jogar à bola ou à apanhada, neste aspecto as raparigas eram as mais afortunadas. Má educação à educação, nem pensar.
Os tempos mudam, ainda bem que existe a evolução, perdeu-se esse gostinho pela “pancada” consentida como forma de correcção e finalmente se percebeu que existem maneiras muito mais fáceis e eficazes de se resolver pequenos “atritos”, apesar de muitos pais perpetuarem essa prática em casa, é um direito que lhes assiste, corrigir tanto miúdos como graúdos (pelo menos eles assim pensam).
As professoras transformaram-se, deixarem de ser aquelas “coisas” de pés pesados e dentes tortos (tive um amigo que tinha pesadelos com a professora do 2º ano), para serem cada vez mais sociáveis, mais amigáveis, mais “inteligentes” para com os estudantes, para cada vez mais “modelos” para bem (e ainda bem) da nossa saúde física e mental e principalmente para bem dos nossos olhos. O estatuto de professor foi progressivamente descendo cada vez mais o pedestal em que se encontravam ao longo dos últimos anos. Já não eram gurus. E isto acarretou coisas boas e más.
Anos mais tarde em plena adolescência lembro-me das brigas entre os colegas. Naquele tempo, todas as horas podíamos ver ou o “Chico” ou o “Manel” a brigarem entre si só porque um dizia que era melhor que o outro, coisas de crianças com 13 anos. A “porrada” (curiosamente rima com pomada) era individual e sempre, mas sempre fora das salas de aula, lá dentro mantinham a compostura e o respeito apesar da camisola rasgada ou do olho negro, o problema era nosso e apenas nosso, não importava para os outros o motivo. Era tudo mantido entre os agressores, “era entre nós e apenas a nós dizia respeito”.

A verdade?!?
Hoje em dia essa realidade alterou-se, as brigas “amadoras” deram lugar a brigas “profissionais” muitas vezes iniciadas e/ou acabadas dentro e/ou fora da escola. Tornaram-se cada vez mais “duras” e vingativas. Deixaram de ser por motivos unicamente “estúpidos” e passaram a motivos de supremacia, raciais, geográficos ou simplesmente passionais. Passaram a ser colectivas entre “gangs” semi-organizados em busca de respeito, da submissão do outro e principalmente como forma de marcar território. Não importa o ano a que se pertence, apenas a que “grupo” se pertence. Se o grupo precisa de ti, dás tudo o que tens por ele, mesmo que isso implique perder a credibilidade perante professores, alunos e instituição escolar. A violência passou definitivamente dos corredores para as salas de aula, deixou de ser do professor para com aluno, passou a ser do aluno para com o professor. Afinal o que leva um aluno a desrespeitar a imagem do professor? A agredir o professor? Só porque isso lhe dá prazer e lhes eleva o ego? Só porque isso lhe trás “estatuto” entre os iguais? Só porque quer ser “fixe”? Só porque não aguenta mais as aulas? Que se passa com esses alunos? Desvios e doenças mentais? “Mau” crescimento e falta de acompanhamento?
Estudantes em idade cada vez mais precoces parecem transportar a realidade das ruas em que nasceram, do próprio seio familiar, para dentro das salas de aula. Recorrendo por vezes a uso de armas brancas e tudo o que pude ser arremessado. Não sentem medo e demonstram-no. Poucos que provocam tanto. Refugiam-se nos amigos de “luta” como segurança a qualquer tipo de retaliação. È a lei do ou “verga ou parte”, a lei da “sobrevivência do mais forte por submissão do mais fraco” sempre foi assim.
Estarão os pais conscientes da realidade dos seus filhos? Estarão eles demasiados ocupados e “stressados” para não perceberem no que os filhos se tornaram ou se estão a tornar? Ou serão os filhos, o “reflexo” dos progenitores? Será que lhes importa a educação que os filhos estarão a ter? Ou descartam qualquer responsabilidade na idade dos educados?
A violência deixou de ter fronteiras e cavalheirismos, não importa o meio que se usa, apenas o resultado que se obtêm.
Devem, ou não devem actuar os professores perante uma agressão de um aluno? Será legítima defesa ou abuso de autoridade? Deverão expulsar o aluno e esperar pelas consequências na próxima aula ou simplesmente ignorar todo o “aparato” montado pelo aluno?
Como deve actuar um conselho administrativo perante uma situação de violência dentro da sala de aula? Deverá expulsar o aluno impedindo-o de ter formação, ou pedir ajuda para que ele seja corrigido? Será esse um dever dos pais ou dos alunos?
Deverão os colegas sentir medo por causa de um colega mal intencionado? Deverão eles ser ameaçados todos os dias ou deverão fazer-lhes frente perpetuando o ciclo de violência?
Afinal quais são os direitos e os deveres de cada um?
Afinal o que se passou? O medo instalou-se em algumas escolas do nosso país, nomeadamente escolas secundárias. Pois isto é a realidade. E existem cada vez mais “iluminados”.

Comprimentos.

Domingos Araújo.

1 comentário:

Anónimo disse...

Amigo Domingos Araújo,

um belo tema.

Merece uma boa reflexão e debate.Nem tudo eram rosas,sim eu sei muito bem,pois "tenho saudades" daqueles tempos.Havia companheirismo,um respeito pelos professores,aprendia-se,estava-se atento nas salas de aula,os recreios eram limpos,as paredes ão tinham grafitis.

Apanhei algumas vezes,não porque não soubesse a matéria (estava no quadro de honra em aplicação),mas porque olhei para o lado,ou por menos (não é necessário tanto esmero),mas hoje quem apanha são os professores e os alunos nada sabem ou aprendem.Sem respeito nada se faz, nada se constrói.É o começo da anarquia generalizada.

"De pequenino se torce o pepino"
Já acontece que quem apanha em casa são os pais...esperem mais para onde vai esta liberdade...sem responsabilidade.

Uma é intrínsica da outra.

Abraços
Mário Relvas

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Atribuído Pela nossa querida amiga e colaboradora deste espaço, a Marcela Isabel Silveira. Em meu nome, e dos nossos colaboradores, OBRIGADO.

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