19 março 2007

Até onde podemos ir?

Hoje dei por mim a remexer na minha pequena biblioteca em busca de um livro que me foi oferecido à já algum tempo (pouco mais de 6 anos), o qual não li nem nunca tive a menor importância de ler. Basicamente “avaliei o livro pela capa” na altura em que me foi oferecido e depois com o passar do tempo caiu no esquecimento e para detrás dos outros livros da estante. Um livro de bolso, do qual não conheço uma única palavra.
A minha busca para com o livro não se deve ao facto de o querer ler agora, nunca o li e não tenciono ler, pois como disse (e reforço novamente) não sei se o livro é “bom ou mau” apenas sei que trata de um tema que não me entusiasma particularmente. O facto de ir procurar esse livro foi com o intuito de perceber a mente de quem me ofereceu o livro.
Na altura ele era meu professor de uma disciplina denominada de EOTD (Estrutura, Organização e Tratamento de Dados) e toda a turma teve direito a um exemplar do livro (éramos apenas seis alunos). Era um professor pacato, muito “no seu canto”, uma pessoa normal, mas com a particularidade de ter uma fé inabalável (fé em todo o seu sentido). Acreditava em Deus (era católico) e por vezes chegava a questionar-nos sobre a nossa própria fé, com todo o tipo de perguntas. Era normal ele oferecer pequenos textos bíblicos e outros demais panfletos religiosos. Nunca nos chateávamos com isso, mas confesso que nenhum de nós na altura dava a mínima importância aos textos, simplesmente eram enfiados no livro ou no caderno e “não se falava mais nisso”. Lembro-me particularmente da primeira vez em que ele me perguntou se eu acreditava em Deus e eu com o intuito de tentar criar um pequeno debate devido ao meu gosto por uma boa “discussão” e sabendo que ele era conhecido por ser um religioso muito fervoroso, respondo (de uma forma irónica) que “não acreditava no Deus da Bíblia, que era ateu, porque acreditava mais na explicação da ciência que propriamente na explicação da igreja”. Rapidamente percebi a real fé do professor.
Recentemente esse mesmo professor foi notícia de um jornal de tiragem nacional e outro de tiragem regional. Daí advêm a procura pelo livro que me tinha sido oferecido anos antes.
Encontra-se actualmente enclausurado em Espanha numa recente seita (seita pelo facto de não ser reconhecida como religião). Não questiono a sua vocação, a sua fé nem a sua escolha. Ele chegou mesmo a viajar para Roma para assistir ao funeral de João Paulo II. Desde cedo que ele demonstrava querer ser ordenado “padre”. Toda a comunidade estudantil o conhecia exactamente por esse nome.
O que me chamou à atenção foi o facto de ele ter doado à sua “mais recente família” algo como 100 mil euros. Afinal que tipo de “lavagem cerebral” é necessário alguém levar para perder a noção da realidade? Tudo o que ele possuía foi adquirido pela respectiva seita. Perdeu o dinheiro, perdeu os negócios, perdeu o carinho dos amigos, o respeito da família, o encontro com os alunos, tudo em nome de uma santidade fútil e inútil. Será que precisamos de nos desprender de tudo para sermos santos? Será que o céu fica mais próximo de nós se despedaçarmos o coração dos que confiavam em nós?
Não estará o céu mais perto a cada acção que fazemos? Ou será que realmente Deus queria que fossemos seres isolados e privados de algo tão básico como o direito a uma vida de liberdade? Para quê então dotar-nos de um cérebro com capacidades cognitivas?
Como é que o sofrimento nos leva a um futuro melhor se a simples natureza se recusa a deixar-nos sofrer?
Independentemente da verba envolvida, é de minha opinião que sem querer o “Stor” conseguiu criar uma luta de titãs entre dois grandes deuses, a fé e o dinheiro.
Como já nada me surpreende neste mundo, apenas desejo que recupere o seu caminho da felicidade, independentemente de ser em liberdade ou em clausura. Até mais ver Professor Peixoto.

Muito ficou por dizer.

Noticia do Expresso- http://expresso.clix.pt/Actualidade/Interior.aspx?content_id=379586

Comprimentos.

Domingo Araújo.

5 comentários:

A. João Soares disse...

Caro bloguista,
Como deve saber, hoje a ciência psicológica dá mais valor à inteligência emocional do que à inteligência racional. A emoção é muitas vezes mais decisiva na vida e nas decisões das pessoas do que a razão. Temos que aceitar as pessoas com o seu conjunto de qualidades e defeitos e resistirmos à tentação egocêntrica de as comparamos connosco, como se nós fôssemos a perfeição absoluta. Ninguém é perfeito, embora todos tenham a arrogância de condenar os outros.
Cada ser humano dispõe de livre arbítrio para estudar os factores das suas decisões e fazer as suas opções em liberdade, claro, desde que não prejudique a liberdade dos seus semelhantes.
Se o sr, se considera com o direito de ser ateu, não tem o direito de condenar os crentes. Já aqui afirmei que a minha fé nada tem a ver com uma religião qualquer, aceitando os bons conselhos de qualquer delas, desde que os ache de interesse para a minha felicidade espiritual. O padre Peixoto, como qualquer pessoa, não recebe a felicidade da mão de amigos, mas de si próprio, do seu conjunto de princípios e de valores. A nossa felicidade é o resultado de um pouco da «sorte» e muito das pequenas decisões diárias na nossa posição perante as realidades, a vida. O padre Peixoto deve merecer a admiração de todos nós e o carinho de familiares e amigos. Estes, pelo que diz o texto, ficaram mais preocupados por não serem beneficiados com as poupanças que ele tinha de reserva do que com a sua filosofia de vida e perante um ser superior que idealizou e com o qual se identificou e se sente feliz.
Certamente que a Madre Teresa de Calcutá teria sido mais benéfica para a família se tivesse trabalhado como enfermeira ou assistente social e ganhasse bom dinheiro que lhes desse. Mas ela sentiu-se mais feliz seguindo o seu ideal de santidade.
Sugiro a leitura do post da Amiga Naty «Um dia você aprende» e o comentário que lhe fiz.
Respeite o conceito de felicidade do seu ex-professor.
Um abraço
A. João Soares

MRelvas disse...

Caro DA, respeito sempre os seus temas, por isso aqui me tem a tentar comentar com a minha opinião.

Cada um é livre de ser ateu,logo os outros sãolivres de terem a sua FÉ independentemente do que apelida de seita!

Alguém um dia me dizia que não professava qualquer religião, mas que elas não ensinavam nada de mal...bem pelo contrário e era uma interrogação para ele!

Não li o caso, não sei a que "seita" se refere.

Uma coisa é despojar-se dos seus bens materiais numa causa em que acredita,outra é ser espoliado e vigarizado.

Se me der mais pormenores poderei dizer mais.

E caro Domingos Araújo, fica sempre muita coisa por dizer!

Leia o livro a ver se entende o porquê!

Nada perde...

Abraços

MRelvas

MRelvas disse...

Caro Da, confesso que nao tinha visto o link do expresso e já lia notícia.Pela maneira com está descrita parece ser uma "seita" emergente, sem qualquer ligação às habituais religiões...

É preciso efectivamente ter cuidado em verse não está a ser coagido psicologicamente,se está bem psiquiatricamente,ou a ser enganado.De resto o que é dele a ele pertence!Embora compreenda a família...

Mais uma vez com um abraço

Mário Relvas

D.A. disse...

Caro A. João Soares.

Eu quando referi que era ateu, perante o Professor Peixoto, foi apenas com intuito de o provocar (criar tema de conversa) e nunca de afirmar a minha posição perante uma religião. Acredite que tenho religião, todos nós temos e ninguém pode dizer o contrário, mesmo um ateu acredita em algo, nem que seja uma vez na vida. No texto eu refiro que não ponho em causa a vocação ou a fé do Professor Peixoto, nunca o fiz nem nunca o farei. Ele é livre de professar o que acha melhor para si e para a sua felicidade. Apenas me chocou o facto de supostamente "Deus" precisar de dinheiro para viver. A entrada na seita deveria ser por opção e não por condição monetária. Do género "se tem dinheiro entra, se não tem fica de fora". Era a este ponto que eu pretendia inicialmente chegar.
Só o facto de pensar que talvez o professor Peixoto tenha caído no "conto do vigário" levou-me a pensar quantos mais não terão caído ao longo de muitos anos. E isso sim não assusta mas dá que pensar.

Domingos Araújo
Ghosttster@gmail.com

A. João Soares disse...

Caro Domingos Araújo,
Realmente, na vida, passam-se coisas inesperadas e difíceis de compreender. Há muito vigarista a emboscar incautos e temos que andar com os travões ajustados para evitar ser arrastados por rampas de difícil retorno. Um professor, portanto adulto e instruído, com pretensões de filósofo (pensa em altos problemas metafísicos) não devia alinhar em actos imponderados. Ou será que a sua «fé» lhe deu a volta ao juízo? Um vigarizado é conivente com o vigarista. Mas a adesão a ideologias pode limitar seriamente a liberdade intelectual. Tenho evitado discutir assuntos de futebol, de política e de religião com pessoas totalmente cegas para um raciocínio livre e lógico que as obrigue a encarar aspectos diferentes daqueles para que estão condicionadas e a argumentar a seu favor. Não têm argumentos e não encontram razões para o seu fanatismo, mas não saem dele.
Se o professor Peixoto foi pressionado a ponto de não ser capaz de raciocinar, merece a nossa pena. Para crer em Deus, não é preciso pagar, nem aderir a grupos dominadores e exploradores.
Um abraço ao amigo Domingos Araújo
A. João Soares

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Atribuído Pela nossa querida amiga e colaboradora deste espaço, a Marcela Isabel Silveira. Em meu nome, e dos nossos colaboradores, OBRIGADO.

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