12 novembro 2006

Herança de retornado...



(...) Estava-se no mês de Abril de 1974.

Subitamente ouviu-se um enorme estrondo e sons que pareciam tiros de balas.

- Que se passaria? - pensou Angélica.

O tio mais novo abriu a porta da rua e entrou esbaforido em casa. Os estrondos continuavam a assustar o Companheiro e Angélica, que acabaram por se esconder no quarto de brinquedos, encolhidos a um canto.

- Mãe, pai, venham cá! Temos que sair daqui o mais depressa possível - gritou o tio aflito.

- Que se passa? Para quê tanta gritaria e que estrondos são estes?(...)

Embora fosse difícil arranjar lugar no avião - pelo facto de haverem listas de espera infindáveis -, conseguiram lugares, através de pedidos desses familiares, para o final de Agosto desse mesmo ano. Até lá teriam que, para protecção própria, viver em clausura, saindo o menos possível, para não darem nas vistas, evitando assim serem presos e torturados, ou até mortos, tal como andava a acontecer com outras famílias.

Durante aqueles meses, Angélica foi proibida pela mãe, de chegar perto das janelas da casa, apesar das janelas serem mantidas fechadas para não chamar a atenção a olhos indiscretos.

Os dias passavam e as bombas e roquetes não paravam de cair. As paredes grossas da casa iam ficando cravejadas de balas. A luz faltava com frequência e a água escasseava, assim como os alimentos.
Felizmente, antes de ‘rebentar a guerra’, Angélica num dia em que brincara com o Companheiro, tinha enchido muitos recipientes com água, que passaram a ocupar o chão da grande garagem que a moradia tinha. E foi essa água - fruto de uma brincadeira - que lhes permitiu sobreviver até à data de partirem para Lisboa.

As poucas malas que puderam levar - para não dar nas vistas -, foram postas no carro, e dirigiram-se para o aeroporto.

Angélica levava o Companheiro na sua mão e agarrava-o com afinco, pois tinha medo de perder o seu grande amigo.

A mãe tinha tentado convencê-la a deixá-lo para trás, mas Angélica chorou tanto que a mãe não teve coragem de deixar o cão para trás.

A caminho do aeroporto, ficaram chocados ao verem passar camionetas repletas de cadáveres.

Perto da entrada do aeroporto, um grupo considerável de porcos e cães rodeavam um amontoado de cadáveres, lutando entre eles, tentando ganhar um lugar que lhes permitisse saciarem-se naquela podridão.

Tais imagens - referentes ao dia da partida da terra que um dia vira nascer Angélica -, ficaram para sempre gravadas nas suas memórias.

No caminho de casa para o aeroporto, o avô deu a conhecer à família de que não iria partir nesse dia, com eles; ia ficar mais uns tempos para tentar passar dinheiro para a Metrópole, para que pudessem ter uma vida mais facilitada. Era seu propósito salvar algum fruto do trabalho das suas mãos, fruto esse que tinha sido resultado da sua dedicação ao trabalho naquela terras, durante mais de 30 anos. Ele não tinha sido daqueles que torturaram os negros, mas era um homem justo e trabalhador.

Ficaram todos muito preocupados em saber que o avô de Angélica ficaria ainda naquela terra por mais tempo, mas não valia a pena tentar contrariá-lo fosse com que argumento fosse, porque tal como Sabrina, era teimoso, e dificilmente se deixaria convencer.

Chegando ao aeroporto, as filas de pessoas deitadas no chão eram enormes. As crianças choravam de fome. Aquele lugar exalava um cheiro nauseabundo que resultava do calor e falta de asseio. (...)

A chegada do avô

Naquele dia receberam a notícia da chegada do avô de Angélica.

Finalmente tinha desistido de tentar transformar os seus bens, em dinheiro e retirá-los de Angola.

Repararam no avô, por entre as pessoas que enchiam a gare. Era um avô que, em poucos anos, se tinha tornado num avô bem mais velho. A sua aparência outrora robusta, viva e vitoriosa, fazia transparecer agora uma pessoa magra, pálida, triste, de olhar mortiço e desiludido.

De repente o avô começou aos gritos:

- LADRÃO, LADRÃO!

O avô agarrou-se com força a um rapaz jovem, e atirando-o ao chão demonstrou um resto da genica que ainda lhe sobejava. Arrancou das mãos do jovem a carteira que este lhe tinha roubado e, dirigindo-se à família que o esperava, disse tristemente:

- Bela recepção...

O avô foi viver para o apartamento de Sabrina, mas por pouco tempo. A casa era muito pequena impossibilitando que cada um tivesse a sua privacidade. Ele passava os dias sentado no sofá a olhar para o vazio, num completo mutismo, e nunca ninguém conseguiu fazer com que ele contasse o que se tinha passado, naquele pouco tempo, em que tinha vivido sozinho em Angola.

Dava tristeza olhar para aquele homem que outrora tinha sido um industrial dinâmico e famoso - em Luanda -, tendo conseguido isso à força de muito trabalho e dedicação, e vê-lo agora sem ocupação e visão.

"Sem uma visão o povo perece!", e era essa verdade que estava a acontecer ao avô; ele perdera a capacidade de sonhar, de visualizar o futuro, de ter uma visão, e isso estava a matá-lo por dentro.

Tudo se perdera lá pelas terras de África. Tantos anos gastos em dedicação ao trabalho e àquela terra para agora ter que viver de uma pensão simbólica, que mal dava para as despesas essenciais.(...)


Fragmentos do livro
“Resolver Traumas (com o passado)”
de Alexandra Caracol

Sugere-se que visite o blogue da autora:
http://violada_mas_nao_vencida.blogs.sapo.pt/

5 comentários:

Mário Margaride disse...

Amiga Alexandra. Sei exactamente o que esta a relatar nesse seu texto. Estive em Angola nessa época como militar, e assisti a situações complicadas, dramáticas! Nós os militatres, também sofremos na pele a complexidade da descolonização.
Foi de facto uma época difícil e conturbada, da nossa história recente.
É bom, faz bem, exorcitarmos os fantasmas do passado.
Um abraço
M.Margaride.

Alexandra Caracol disse...

Meu amigo Mário

Quando falei com um amigo e disse que tinha vontade de tocar neste assunto ele respondeu-me que "toda a gente já está farto de ouvir histórias de retornados", e que além disso “este é um assunto que já passou há muitos anos".

Pensei no assunto e senti ainda mais vontade de falar nisto porque quem esteve lá e sofreu na pele nunca poderá esquecer, pode é aprender a viver, apesar do que sofreu com a descolonização.

Eu e muitos dos que lá viveram decerto não gostarão que se esqueça aquela época da história.

A história não é para ser esquecida, mas para ser lembrada para que possamos aprender com os erros e o sofrimento e não os repetir.

Pelo menos é o que eu penso.

Com amizade

Alexandra Caracol

MRelvas disse...

Cara Alexandra...fez-me recordar o que não esuqeço nunca.Em Moçambique...um dia escreverei algo que me vai na alma...
"Os malditos retornados",que expulsos de Portugal pelos portugueses que tinham fugido de Portugal,fugido da Guerra...sim dos cobardes que ainda gerem Portugal.
Os que se exilaram em lugares terríveis,como PARIS,ARGEL,MOSCOVO...com todas as mordomias...dizendo serem "anti-fascistas"...
Aqueles que sem consciência do sofrimento que fizeram passar o quaze milhão de PORTUGUESES que viviam no PORTUGAL ultramarino.

Sim podiam ter dado a auto-determinação caminhando para a independência,que incluísse os portugueses que construíram,que civilizaram a África Portuguesa,que construiram o exemplo de África comparativamente às colónias de outros povos europeus.
Depois do 25 de Abril,Portugal desenvolveu-se com a vinda desses "COLONIALISTAS FASCISTAS" que depois de tudo perderem tiveram de se fazer à vida de novo,recomeçar tudo.Estes que dizem exploraram,chibataram os "negros".Os mesmos que hoje quando visitamos aqueles países destruídos,inseguros e pobres (são dos mais ricos do mundo) nos pedem para ficar.Sim pedem para que os "ex-colonialistas",os MAUS, regressem!Ironia do destino,agora quem lá vai é só para trazer o dinheiro de lá...não acreditam naquilo,no futuro sempre incerto!

Abraços Alexandra
Mário relvas

david santos disse...

Adorei, querida Alexandra, são factos, mas não estou preparado para falar disto. Mata-me! Vivi-os! Não os quero! Nem sei falar deles... nem gosto! Não sei se os odeio, se não são parte de mim, não sei!

MRelvas disse...

David,teremos que falar um dia destes neste tema...sim não pode passar incólume nesta voz do povo de que fazemos parte!

São factos...desconhecidos por esta juventude que nem sonha o que foi aquilo!Nem sabem o que passámos,o quão fomos maltratados aqui...
Seria uma boa temática para amanhã!!!
Abraços
MR

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