04 novembro 2006

Maomé e a Guerra Santa

...continuação parte XV

Rescaldo das invasões


Os coptas não tinham reagido tão bem à ocupação muçulmana, mais por causa dos modos crueis do general Amr do que por causa da religião ou do povo árabe. E, como já foi referido, os ortodoxos, que deveriam estar revoltados pela ocupação, preferiram continuar na região, a gozar dos impostos mais suaves e do tratamento mais humano dos árabes do que voltar ao Império, agora empobrecido e a precisar de encher os cofres de novo.
Os árabes, ao contrário de Bizâncio, que sempre impôs uma única fé, exigindo constantemente conversões imediatas das minorias religiosas, estavam dispostos a permitir a existência destas, desde que fossem fés do Livro (ou seja, cristãos, judeus ou zoroastrianos). Tinham o estatuto de dhimmis, ou protegidos, e podiam exercer o seu culto, desde que pagassem a jizya, e um imposto sobre a propriedade, o kharaj.
Destaque-se, contudo, que os árabes nem sempre respeitaram este estatuto de protecção e que algumas igrejas e sinagogas foram destruídas, mas, no geral, havia respeito pelas minorias. Os árabes não eram totalmente permissivos e criaram uma rígida legislação para o funcionamento do milet (um milet era uma comunidade religiosa semiautónoma, com um líder próprio que era responsável pelo bom comportamento dos seus subordinados).
Os lugares de culto não deveriam ser aumentados em nenhuma circunstância, os dhimmis nunca deveriam possuir cavalos e deveriam vestir roupas diferentes, não poderiam tentar converter muçulmanos nem casar com mulheres árabes. Também não podiam faltar ao respeito ao Islão e deviam total obediência ao califa e ao Estado.
Uma destas regras, a da proibiçao de construção de novos templos, favoreceu especialmente os ortodoxos, pois antes da invasão árabe Heráclio tinha restaurado e mandado construir novas igrejas. Esta regra viria a ser levantada pelos juristas muçulmanos, que compreenderam esta necessidade. Foi criada uma lei que permitia a construção de novos edifícios religiosos, desde que não ultrapassassem em altura os restantes edifícios muçulmanos, e desde que os sinos e serviços religiosos fossem inaudíveis a ouvidos árabes.
A situação ortodoxa na Síria e no Egipto ficaria quase que congelada durante a ocupação muçulmana. Devido às restrições, não tinham muitas hipóteses de se expandir. A conversão de árabes era proibida e os hereges não estariam de certeza interessados em abjurar para regressar à ortodoxia.
continua...

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