29 setembro 2006

"CENAS DA VIDA"

Não há, como uma vez por outra, passarmos os olhos por escritos de outra origem. Este conto é de Ricardo Stockler, um escritor antigo, português, pois claro, e que para além de ser um Católico sem mácula, pelo menos que eu as conheça, e passa, porque ainda é vivo, grande parte do seu tempo apregoar aquilo que, segundo ele, é útil transmitir à sociedade dos nossos tempos.

A mãe ensinava a filha a cozinhar. No caso presente, prato de peixe.
- Primeiro, menina, cortas o peixe em três. Junta-lhes os condimentos. Acomodadas as partes na travessa. Levas ao forno.
A jovem tomou nota de tudo. Mas não entendeu um pormenor da receita. «Mãe! Por que é que se tem de cortar o peixe em três partes?»
- Olha, filha, não sei. Foi assim que a minha mãe me ensinou!
A resposta não satisfez a aprendiz.
Por isso, ela foi ter com a avó:
- Avozinha! Por que é que se tem de cortar o peixe em três, antes de o pôr na travessa?
- Para ser franca, não sei! Foi assim que a minha mãe me ensinou!
- Não! - pensou a pequena. Tem de haver melhor razão. Por isso, vou consultar a visavó. Avó grande! Ensinaste a tua filha a cortar o peixe em três, antes de o meter no forno, Porquê?
- Muito fácil! Porque, nos primeiros anos de casada, eu não tinha dinheiro para comprar uma travessa maior.
Quer dizer: várias gerações de donas de casa cumpriram o mesmo ritual. Por rotina. Facilitismo. Simples tradição.
Esta maneira de actuar nada tem de racional. E pode até vir a ser causa de factos desagradáveis.
Basta notar:
Muitas pessoas vão, aos domingos, à missa. Não por morivos de verdadeira fé. Mas somente por rotina. Avós e pais assim faziam. Assim ensinavam. É de bom-tom continuar os seus hábitos.
Se for esse o nosso caso, de nada vale darmo-nos ao incómodo de ir à Igreja. Falta-nos a adesão a este acto. Íntima e consciente.
Domingo, de manhã. Numerosa multidão assiste à missa.
De súbito, irrompem pela Igreja dentro quatro terroristas ameaçadoes. Encapuçados.
Vestido de preto. Da cabeça aos pés. Apontam as metralhadoras. Ocupam o templo. Ar ameaçador.
Um deles grita: «Quem quiser levar um tiro na cabeça por Cristo, deixe-se estar onde está! O resto, fora daqui! Três minutos para abandonarem a Igreja!
Debandada geral! Os assistentes fogem precipitadamente. Todos querem salvar a pele. Ficam apenas vinte pessoas. Essas resistem. Permanecem imóveis. Silenciosas. Interiormente rezam. Preferam morrer pelo Senhor Jesus.
Entretanto, a situação acalma. Lentamente. Faz-se silêncio profundo. Neste momento, o chefe terrorista dirige-se ao celebrante: Perdão, Reverendo! Como vê, livrei-o dos hipócritas! Pode continuar agora a Missa, em ambiente de sinceridade.
Era assim que viviam os premitivos cristãos. Permanentemente preparados para o sacrifício da vida. A todo o momento, os inimogos de Cristo podiam surgir. E exigir-lhes o martírio.
Porém, não havia receio. O sangue dos mártires era semente de cristãos. Nesse tempo, ninguém temia a morte. Pelo contrário! Todos ansiavam por dar o seu sangue. E assim sofrer a morte pelo Senhor Jesus.
O autor deste texto, Ricardo Stockler, Católico honesto, pois sou seu amigo, sei muito bem quem é, é dos escritores que conheço, e ele já não é nehum jovem, ou melhor, é um jovem com mais de oitenta, sempre foi das pessoas, com muita habilidade, claro está, que mais criticou os seus, nem todos, como é óbvio, amigos seguidores do catolecismo.
Entenda-se um texto destes, por acaso, muito bonito, escrito em outras praças...
De Ricardo Stockler

8 comentários:

A. João Soares disse...

Gostei de ler este texto.
O Amigo David Santos aborda vários temas em que a linha comum é a irracionalidade da rotina. Esta surge por um motivo lógico, por uma necessidade, mas depois arrasta-se pelo comodismo, pela preguiça de pensar, pela falta de coragem para discutir as coisas. E, por isso uma coisa que se torna obsoleta e irracional vai sobrevivendo sob a capa opaca da indiferença.
Deve estar recordado da história do Michel, sobrinho do Engenheiro Pierre Sadoc, que assentava na atitude racional e anti-rotina da Aquitaine que decidiu pôr e causa a sua estrutura e o se funcionamento, para o que contratou uma empresa especialidade. Nas nossas vidas particulares, é fácil analisarmos cada um dos gestos diários para chegar à conclusão se serão úteis e convenientes ou se haverá uma forma mais simples e eficiente de actuar. Ma nas grandes empresas e nas estruturas estatais o caso fia mais fino. Mas já se levantam vozes a sugerir análises semelhantes à da Aquitaine. Há mesmo serviços que já não têm razão de existir, e não são os seus dirigentes a acabar com eles. Há outros que ainda têm uma finalidade racional, mas que necessitam de serem reestruturados em função de uma mais eficaz consecução do objectivo a que se destinam. A rotina, se enquanto for racional economiza esforços para não se desgastarem recursos humanos e de tempo, quando fica demasiado maquinal e se torna desadequada aos fins da instituição, é nociva e retarda a acção por não se ter modernizado face às circunstâncias reais.
Já que no seu texto foca aspectos religiosos, recordo que Simone Veuil, numa entrevista de há poucos anos, depois de dizer que é ateia, ao ser perguntada sobre o texto que mais admirava respondeu que é o PAI NOSSO, justificando que e poucas palavras diz tudo o que é necessário para traduzir o essencial da religião cristã. Mas, nós presenciamos que a maioria dos católicos papagueiam esta e outras orações sem analisarem o significado de cada palavra e de cada frase, por força (ou inércia) da rotina. Devido a nunca terem sido estimulados para discutirem cada frase, a serem desafiados a dizerem o mesmo por outras palavras, para melhor interiorizarem aquele texto maravilhoso e tão admirado por aquela senhora que até se confessa não crente.
E se não houver um esforço intelectual para questionar a religião, as pessoas, embora continuem com as suas rotinas mais ou menos inconscientes e sonolentas, acabam por não ser minimamente religiosas na forma como o Criador gostaria. Veja só a frase «perdoa-nos as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido». os tempos que correm, quem é que perdoa a quem? Quem é que ama os outros como a si próprio? Muito poucos.
E, com isto, apenas quis mostrar-lhe a minha concordância com o essencial do seu texto. Desta vez não quis agitar nem levantar polémicas!!!
Um abraço

MRelvas disse...

Caro David,fantástico e espere que entenda porque eu refiro que gosto pouco de citações muito emblemáticas,a não ser como no caso,lindo de "morrer".Acredito mais em ouvir por palavras próprias oque as pessoas sentem e dizem,sem recorrer ao tradicionalismo ou coorporativismo.Realço no entanto que gosto muito das tradicções e dos adágios populares.Por vezes poderão ocorrer situações engraçadas,tal como a 1ª estória.
Na segunda estou novamente de acordo,pois temos a mania de dizer sou católico não praticante,ou vou pouco à missa...ou é ou não é!
Com muita ou pouca missa,os actos cumprem-se no dia a dia.

Bem hajam David e João por tal diálogo!

MRelvas disse...

Esqueci-me de dizer que aprendo todos os dias aqui com vocês caros amigos.

É gratificante saber que nada sei.

abraços

david santos disse...

Boa dia, Mário. De facto foi Michel e o tio Pierre Sadoc que me fizeram andar à procura do texto de Ricardo Stockler. São muito semelhantes, não acha? Pois é, nós não sabemos tudo e muito do que sabemos aprendemos com alguém. É ou não verdade? Obrigado, amigo Mário.

Amigo Relvas, bom dia. Sempre que um homem cita o trabalho de outro, está a garantir que quer aprender e a admirar os outros, gostar deles. Já quando fazemos um plágio e não o denunciamos, não damos o valor ao seu autor, aí sim, aí é que é querermos ser aquilo que não somos. Um grande abraço a ambos.
david santos

João Titta Maurício disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
João Titta Maurício disse...
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João Titta Maurício disse...

Meu Caro David Santos,
Li o seu texto e confesso, sem qualquer vergonha, que, quando lê o seu texto, um homem também chora... também deve chorar... também tem de chorar!
Chorar é bom quando nos recorda a nossa fragilidade, a nossa pequenez, a nossa cobardia.
Quem não gostaria de ser um dos 20 da sua estória...?!? Todavia, confesso que não sei o que faria! Espero que nunca me aconteça tal, mas... se for essa a Sua vontade... só Lhe peço que me dê coragem e discernimento para Lhe ser fiel, para não hesitar, para não vacilar, para dar verdadeiro testemunho de vida na Fé!
Obrigado,

david santos disse...

Não, João Titta Maurício. Eu já não choro. Vivo afogado em lágrimas. Só que estas já não não escapam do seu lago. Não querem ver a superfície. Entendem que metidas dentro do seu canto são mais puras. Não sei se estão no caminho certo, se têm um pesadelo. Só sei que estão lá, sinto-as. Mas elas não são o pior. O pior são os meus olhos. Vêem! Ah, se eles não vissem! Até seria feliz, quem sabe!? Mas vêem... Se eu os tivesse cegos, a olharem mas não verem, não via o que já vi nem veria o que terei que ver. Malditos olhos, eu tenho! Há tantos olhos que vêem, mas não vêem. Só os meus não. Os meus vêem tudo... desde guerras a crianças desamparadas. Ah, se os meus olhos vissem futebol e telenovelas! Mas não vêem! Se vissem estas coisas, até choravam de hipocrisia. Assim não. Assim até já nem choram. Dexaram este trabalho ao cuidado do meu espírito.
Gostei da sua observação. Um abraço: david santos

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