26 setembro 2006

Reorganização - um caso típico

Perante as notícias do fracasso do grupo de trabalho para a reforma da administração pública e consequente reajustamento dos recursos humanos, recordei uma história que foi contada, em 1971 no «Curso Superior de Management» organizado pelo INII (Instituto Nacional de Investigação Industrial), em que tive o privilégio de participar, pelo engenheiro Pierre Sadoc director do Instituto Superior de Organização e Gestão, de Paris, que vinha assessorado por dois engenheiros professores do mesmo Instituto.
Michel, sobrinho de Pierre Sadoc, era um jornalista e fotógrafo genial, mas amante da bela vida com muito ócio e lazer. De vez em quando, pegava na mala e nas ferramentas de trabalho, ia para lugares remotos (Cochinchina, Patagónia, Tuvalu...), onde fazia uma reportagem que lhe era muito bem paga por uma das melhores revistas do Mundo. Desse dinheiro guardava o necessário para a reportagem seguinte e o restante era gasto da maneira mais agradável que lhe viesse à cabeça. Acabado este, pegava no que estava reservado e partia novamente para o seu trabalho.
Mas, um dia, apaixonou-se e casou. Passado pouco tempo a mulher abordou o tio e lamentou que a vida assim era muito insegura e era preciso convencer o Michel a arranjar um emprego que garantisse um rendimento regular e previsível. Pierre Sadoc não teve dificuldade em ser útil e, sabendo que a petrolífera Aquitaine precisava de um relações públicas, conseguiu ali empregar o sobrinho. O Administrador ao receber a apresentação do Michel lamentou não dispor de espaço para lhe dar um gabinete pessoal, mas poderia ficar a trabalhar no mesmo gabinete do director de recursos humanos e seria apoiado pela mesma secretária. No cabide estava sempre uma gabardine, um sobretudo ou outra peça e a secretária respondia sempre a qualquer contacto que ele estava em serviço algures, não demoraria, mas seria preferível deixar mensagem. E o tempo ia passando. Ele, em França, só sabia gozar a vida, o trabalho a que estava habituado era sempre feito longe!
Mas, de repente, espalhou-se a notícia de que a Aquitaine tinha contratado uma empresa americana especialista em análise e reestruturação de empresas, para ver as reformas que convinha levar a cabo a fim de obter maior rentabilidade e eficiência. O pessoal ficou preocupado porque era sabido que, após a intervenção daquela empresa, metade do pessoal era dispensado sendo aumentados os ordenados dos restantes para quase o dobro. Michel apelou ao tio.
- Tu que sabes destas coisas, diz-me lá o que tenho que fazer para não ser corrido, porque eu não faço mesmo nada de nada, e, por isso não me deixarão continuar.
- Faz o mesmo que tens feito. Não alteres em nada a tua vida.
- Estás a ser amigo da onça e não meu amigo. Não estás a ver que estou numa situação terrivelmente aflitiva?
- Ou acreditas em mim ou não. Se acreditas, faz como te digo.
- Faço o que dizes, mas estou cada vez mais preocupado.
A empresa americana fez o seu trabalho e, terminado este, o Michel feliz, mas com cara de incrédulo, abordou o tio e disse-lhe:
- Despediram cerca de metade do pessoal os outros, incluindo eu, foram aumentados substancialmente. Explica-me porque sabias que isto ia ser assim.
- Essa empresa baseou a sua análise no circuito dos papeis, reduzindo muitas voltas que eles dão, sem uma finalidade prática, do que resulta uma nova listagem de tarefas, sua distribuição e dispensa de pessoal que deixou de ser necessário. Como nunca mexeste num papel, os analistas nem sequer se aperceberam da tua existência.

No problema da reforma da administração pública, a fim de servir melhor os interesses do País, e dos cidadãos, é imperioso listar as tarefas realmente necessárias, tendo em vista a simplificação, e eliminar as restantes. A seguir, as tarefas seleccionadas devem ser agrupadas por afinidades e atribuídas a um sector da administração e definir canais de coordenação deste com outros sectores também interessados na eficiência dessas tarefas. Assim, se evitarão duplicações que causam custos, originam confusões e demoras convidativas à corrupção. Recorda-se, neste aspecto, a estranha criação de um departamento de assuntos económicos no MNE que pode ocasionar duplicação com o ministério da Economia e consequentes complicações, contradições e demoras no funcionamento das respectivas actividades. Também merece reflexão a existência de forças especiais de intervenção da GNR, da PSP e da PJ, em vez de uma única força que acorresse ao apelo de qualquer destas polícias. Portugal não é tão grande, em superfície, em população e em riqueza, que justifique vários serviços afins, totalmente auto-suficientes, para concorrerem entre si na recolha dos louros de qualquer situação, A economia de meios é essencial para o desenvolvimento e para evitar desperdícios.
Já há tempos, foi criada a «Autoridade de Segurança Alimentar e Económica» (ASAE) que substituiu três serviços de tarefas mal definidas e sobrepostas, o que os tornava inoperantes. A eficiência desta medida tem sido demonstrada pela intensificação das inspecções resultando na apreensão produtos deteriorados e detecção de actividades em condições anti-higiénicas, lesivas da saúde pública.

2 comentários:

david santos disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
david santos disse...

Ó amigo João Soares, aquela do Michel é de andar aos pulos. Para mim veio na hora certa. Sinceramente!
Um grande abraço.
David

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