18 setembro 2006

"Papa esclarece mas não convence"

Notícia assim hoje o Jornal 24Horas a respeito da polémica instalada a propósito do discurso do Papa a semana passada numa universidade alemã.
Confesso, que me constrange falar sobre assuntos de matéria religiosa, por serem sempre de grande polémica e normalmente interpretados à luz do senso comum.
Neste caso não resisto a deixar aqui a minha opinião pessoal, dado que apesar de tudo, considero sua excelência o Papa um homem bom e sem intenção de ofender o Islão.
Na sua intervenção pública dominical, o Sumo Pontífice diz o seguinte:
- " Estou vivamente entristecido pelas reacções suscitadas por uma breve passagem do meu discurso, considerado ofensivo para a sensibilidade dos crentes muçulmanos, já que se tratava de uma citação de um texto medieval que não exprime de forma alguma o meu pensamento pessoal", ora aqui está a inocencia do Papa, os discurso proferidos, não é ele que os redige, limita-se a ler o que lhe prepararam e neste caso, algum dos seus colaboradores, escolheu a referida citação do sec. XVI, completamente despropositada e a meu ver para prejudicar a imagem do Sumo Pontífice.
O Papa, terá que sim rever tudo o que lhe colocam nas mãos para ler, antes de o fazer, está visto que a equipa que o rodeia não é de confiança!
O que está aqui e agora em questão, é que não consigo entender, o porquê de umas palavras, incendiarem de tal forma os espíritos... tanto quanto sei não há nenhuma religião que incite os seus fiéis, a praticar o mal, somos todos filhos de Deus e portanto irmãos, o porquê destes ódios viscerais? Tudo isto é incompatível com os preceitos dos livros sagrados o Corão e a Bíblia.
Creio sim, que os fiéis católicos e muçulmanos, são instrumentalizados pelos senhores da guerra que têm todo o interesse em alimentar, ódios e guerras.
Para bem da humanidade e dos homens, era tempo do povo abrir os olhos e não entrar em fundamentalismos, que só podem causar dôr e sofrimento.
É tempo de todos darem as mãos e trabalhar para uma verdadeira paz, alicerçada no respeito pela diferença, num mundo que se pretende mais justo e igualitário!

15 comentários:

Mário Margaride disse...

Não podia estar mais de acordo! É de facto tempo, de as pessoas pensarem pela sua própria cabeça, e não se deixarem "embalar" por dircursos demagógicos, e respeitarem as ideias a as diferenças dos outros. Isso...chama-se liberdade!
Um abraço.

david santos disse...

Cumprimentos, Victor.

"Papa esclarece mas não convence"
Os nossos amigos sunitas ou xiitas, seguidores do "Corão", (Livro Sagrado do Islão) têm que compreender, por muito que lhes custe, as nossas diferenças. O Papa é um homem. Claro que não é um homem qualquer. Mas isto não lhe pode deminuir a liberdade, nem tão pouco, o condenar por meras citações ou parceres.
O Sunismo diz: "Não há outro Deus senão Alá e Maomé é o seu Profeta" nada a constetar, respeitamos.
O Xiismo, por seu lado diz: "Mahdi, o salvador; há-de vir para salvar os oprimidos da Terra" nada a constetar, respeitamos.
Mas, sinceramente, que respeitem as nossas formas de opinar... se o Papa instigasse ao ódio, mas não. O Papa solicita a paz. Quantos milhões dos de cá estão constantemente a criticar os que aos de lá fazem mal? Admito que possamos errar, mas da liberdade de opinar, não abdico. Por nada deste mundo! Posso estar a parcer incoerente, aliás, sou. Não sou como o combóio que segue sempre pela mesma linha. Sempre que determinada linha me aborrece, mudo de linha. Mas, como eu ia dizer, sou dos homens que mais tem combatido, como posso, claro está, as atrocidades a que o povo daqueles lados tem sido sujeito por terroristas como Bush e Cª. Não é que isto me faça estar mais à-vontade que outros, mas, neste caso, faria-me, desculpe o termo, estar mais calado do que alguém e, isto jamais farei. Não estou minimamente de acordo com aqueles que querem fazer com o Papa pessa desculpa, nem de perto nem de longe! Ele citou. Nem sequer opinou. Podemos, ou talvez possamos, criticar a Sua citação mas, mandá-Lo calar, nunca!
Um abraço, Victor.

A. João Soares disse...

O Amigo Víctor fez bem em trazer est tema ao blogue.
Num momento de grande sensibilidade e excitação, acho que qualquer referência de um alto dignitário da Igreja Católica ao Islão dará ocasião ao avivar de conflitos latentes. Sua Santidade não quis ofender nem diminuir o valor do Islão. Talvez o cartonista que se referiu ao Profeta Maohme também não quisesse ofender os crentes muçulmanos. Mas o resultado foi terrível. O diálogo entre as diferentes religiões e diferentes culturas deve ser praticado. A serenidade é exigida para se evitarem os erros do passado.
Mas como é referido por vários jornalistas nos jornais recentes, João Morgado Fernandes, José Manuel Fernandes, Francisco José Viegas, Vasco Pulido Valente e outros, houve uma tempestade a propósito de um copo de água. Houve preguiça para ler todo o documento e apreciar o verdadeiro sentido. Houve má intenção para explorar na rua da pior maneira uma frase separada do contexto. O mundo actual é demasiado cruel e o Vaticano não pode distrair-se, usando uma palavra ou uma frase potencialmente explosiva. As outras culturas não são tão compreemsivas e tolerantes como a Ocidental de raiz cristã. Recorde-se que nada de grave aconteceu quando um cartonista desenhou um preservativo no nariz do Papa João Paulo II. Seria bom para o mundo que os muçulmanos se aproximassem em usos e costumes do século actual, mas ninguém deve tentar esse progresso com espadeiradas, e eles consideram espadeirada uma simples citação inocente se for interpretada inserida no contexto do discurso.
Um abraço

david santos disse...

Obrigado pelo que acaba de escrever, João. Não é que seja só por me agradar, mas porque encontro nas suas frases algo despido de facções. Adorei.
Um grande abraço.
Até sempre.

MRelvas disse...

Caros amigos a relegião foi instrumentalisada.A partir disso qualquer palavra é massivamente explorada.O Papa Bento XVI mais não fez que apelar ao diálogo,por outras palavras que se entrasse em negociações diplomáticas e não pela guerra.Disse que não há guerras santas (jihad),guerras são guerras...mas como a situação está de tal modo ao rubro,disseram o contrário e que o Papa tinha que pedir desculpas!O ridículo hoje é que nem se pode pensar muito menos expressar em relação a tais coisas!Teremos que comer e calar,as actitudes dos inflacionados povos referidos sem nos manifestarmos ou pensarmos alto?Para onde caminhamos??Em que ponto isto não está de tal modo instrumentalizado que não leve ao descambar da guerra total,em nome das religiões,quando quem está por detrás dela são os $$!Espero que o Papa não desista das suas viagens...O Presidente da Rússia fez uma declaração boa,apelando à calma.Para ele se meter que não professa nenhuma,penso eu de que...o caso é como nós sabemos violento e grave!Vieram declaraçõsde todo o mundo,mas realço a da comunidade islâmica em Portugal que realçou o ecumenimos de João Paulo II e da Igreja de Portugal,com quem aliás se têm dado muito bem.É de realçar...Temos que ter calma e paciência mas volto a perguntar...se nos calamos que acontecerá?O clima está de tal modo que teremos guerra por ter cão ou por não o ter!Será?...

Gostei dos comentários de todos!

Abraços

Rui Tulik disse...

Tenho de deixar aqui o meu comentário apesar de entender que religião é um tema no qual não gosto de tocar. Como católico que sou, fui seminarista e sinceramente não me agrada que este senhor que muitos chama de Papa o senhor cardeal Ratzinger teça estas comentário sobre a religião muçulmana, se o que ele leu foi sobre o passado dos muçulmanos, também nós cristãos temos telhados de vidro (cruzadas, santa inquisição etc)e por isso o senhor que algusn cardeais elegram e lhe chama de Papa Bento 16 não deveria dar tiros nos pés, relembro que este senhor não tem caractér para vir fazer estes e outros comentários pois é muito triste ver a igreja catóçica regredir uns bons anos com a ascenção deste senhor à acdeira de Pedro. Um Papa que a quando da sua ordenação como sacerdote fez o juramento de votos de pobreza e calça sapatos prada, manda fazer as suas indumentárias a um estilista italiano caríssimo que moral tem esse senhor para ser Papa? tudo isto são indicadores de que escolheram mal e não lhe dou sequer 6 anos (tempo mínimo de mandato) na cadeira de Pedro!!!

animadverto disse...

Um amigo meu falou-me que a religião (neste caso cristã, mas este exemplo também se pode enredar para outras religiões do mundo) tornou-se uma doutrina politica desde que, o imperador Constantino a proclamou como religião “oficial” do império romano. Eu vi à pouco tempo num documentário que “até1508, os reis alemães não eram considerados imperadores (Kaiser) do Reich até que o Papa, Vigário de Cristo na terra, os tivesse formalmente coroado.” Mais um exemplo de como o futuro das religiões se tornaram irmãs (necessariamente) de impérios e politicas da Europa e do mundo. Por isso, pergunto: Onde está o exceder nas palavras proferidas pelo Papa e a resposta do mundo islâmico? Em nada. Como se pode exceder em religiões que oferecem bíblias e corãos em troca de terras, e que regularizam o homicídio por ordem de políticos dando justificação à matança ao dizerem que é desígnio de algum Deus? Em nada. A religião é uma política tão bem delineada que os mártires islâmicos e os inquisidores cristãos não são mais do que mera propaganda político-religiosa. No médio oriente matas-te a ti e aos que estão à tua volta e transformam-te num cromo; no ocidente proferem palavras que sabem a priori que iram causar danos no islamismo unicamente para obter votos, mais seguidores. “Eu continuo ateu, graças a Deus…”

Ulisses Campos disse...

"Porque é que as igrejas têm pára-raios? É para mostrar aos ateus, que os cristãos, por mais que o sejam, não têm fé nenhuma em Deus"
( Zéca Afonso ?? suponho que seja o autor )

Espero que ao colocar este texto, não tenha ofendido os cristãos, não é minha intenção fazê-lo! Quero com isto ilustrar, que a fé é um estado de alma ou se tem ou não se tem, eu sou ateu mas tenho fé na humanidade, no crescimento cultural e que abra os olhos e não se deixe manipular pelos líderes religiosos, seja qual for a religião ou credo!
O Homem é por natureza bom, nós somos natureza o nosso Deus está dentro de nós é a nossa essência como humanos.

João Titta Maurício disse...

Ofereço para análise o texto que, DSE FACTO, foi lido por SS o Papa Bento XVI. Nunca ouvi a desculpa do texto ter sido escrito por outros... Pois, por uma lado, Joseph Ratzinger é, talvez, o maior teólogo vivo! E, por outro, achar que na Igreja (e principalmente com o Papa) os discursos são escritos por outros e colocados na mão do Papa para ele ler como se fosse um papagaio é, ou uma piada, ou então uma tentativa de compreender a Igreja com base em modelos que foram usados noutras paragens... mais para Oriente!

Mais, a citação é usada para demonstrar exactamente o contrário. Aliás, o texto em concreto é antecedido por «le dirige-se ao seu interlocutor com uma brusquidão inesperada que nos surpreende acerca da questão central sobre a relação entre religião e violência». Mas leiam pois que aqui fica:

Fé, Razão e Universidade: Memórias e Reflexões

Discurso do Papa na Universidade de Regensburg (tradução em inglês)

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Vossas Eminências, Vossa Magnificência, Excelências,

Distintos Senhoras e Cavalheiros,

É uma experiência comovente para mim estar de volta á universidade e poder, mais uma vez, dar uma lição neste pódio. Penso naqueles anos em que, depois de um período agradável na Universidade de Freisinger, comecei a ensinar na Universidade de Bona. Estávamos em 1959, nos tempos em que a universidade era feita de professores catedráticos. As várias cadeiras não tinham nem assistentes nem secretarias, mas em recompensa havia muito mais contacto directo entre estudantes e entre os próprios professores. Encontrávamo-nos com frequência antes e depois das lições nas salas de professores. Havia um intercâmbio vivo com historiadores, filósofos e, naturalmente, entre as duas faculdades de teologia. Uma vez por semestre havia o dies academicus, em que professores de cada faculdade apareciam perante os estudantes de toda a universidade, tornando possível uma experiência genuína da universitas – algo que V. Ex.ª também, Magnífico Reitor, acabou de mencionar – a experiência, noutras palavras, do facto, de que, apesar das nossas especializações que, por vezes, tornam difícil comunicarmos uns com os outros, fazemos parte de um todo, trabalhando em tudo na base de uma racionalidade única nos seus vários aspectos e partilhando responsabilidade no uso adequado da razão – esta realidade tornava-se uma experiência vivida. A universidade tinha também muito orgulho das suas duas faculdades de teologia. Era claro que, inquirindo sobre a razoabilidade da fé, também levavam a cabo um trabalho que era necessariamente parte do “todo” da universitas scientarum, mesmo se nem toda a gente pudesse partilhar da fé que os teólogos procuram correlacionar com a própria razão. Este sentimento profundo de coerência da razão dentro da universidade não foi sequer perturbado, mesmo quando uma vez foi noticiado que um colega nosso dissera algo estranho acerca da nossa universidade: que tinha duas faculdades dedicadas a algo que não existia: Deus. Mesmo face a tão radical cepticismo é ainda necessário e razoável colocar a questão de Deus pelo uso da razão, e fazê-lo no contexto da tradição da fé cristã: isto, na universidade, considerada na sua totalidade, era aceite sem qualquer questão.

Fui recordado disto, quando recentemente li a edição do Professor Theodore Khoury (Münster) de parte do diálogo levado a cabo – talvez em 1391 no acampamento de Inverno perto de Ankara – entre o erudito Imperador Bizantino Manuel II Paleólogo e um intelectual Persa sobre o assunto da Cristandade e do Islão e a verdade de ambos. Presumivelmente foi o Imperador que iniciou este diálogo, durante o cerco de Constantinopla entre 1394 e 1402; e isto explicaria porque é que os seus argumentos são mostrados em maior detalhe do que os do seu interlocutor Persa. O diálogo situa-se largamente nas estruturas da fé contidas na Bíblia e no Corão e trata especialmente a imagem de Deus e do homem, ao mesmo tempo que retorna sucessivamente à relação entre – como são chamadas – as três “Leis” ou “regras de vida”: o Antigo Testamento, o Novo Testamento e o Corão. Não é minha intenção discutir esta questão nesta lição; eu gostaria de discutir aqui apenas um aspecto – ele próprio bastante marginal ao diálogo na sua totalidade – que, no contexto do tema “fé e razão”, me parece interessante e serve como ponto de partida para a minha reflexão sobre esta matéria.

No sétimo colóquio ("diálesis" – controvérsia) editado pelo Professor Khoury, o imperador toca no tema da guerra santa. O imperador devia saber que surah 2, 256 diz: “Não há compulsão nas coisas da fé”. De acordo com os peritos, este é um dos suras do período inicial, em que Maomé não tinha ainda qualquer poder e era perseguido. Mas o imperador também conhecia as instruções, mais tardes desenvolvidas e transcritas para o Corão, e que dizem respeito à Guerra Santa. Sem descer a detalhes, tais como as diferenças em tratamento relativas aos que seguiam o “Livro” e aos “infiéis”, ele dirige-se ao seu interlocutor com uma brusquidão inesperada que nos surpreende acerca da questão central sobre a relação entre religião e violência, em geral, dizendo: “Diz-me o que é que Maomé trouxe de novo e aí apenas encontrarás coisas más e desumanas tais como a sua directiva de espalhar com a espada a fé que pregava”. O imperador, depois de se ter expresso assim tão fortemente, segue para explicar em detalhe as razões pelas quais divulgar a fé pela violência é qualquer coisa de irrazoável. A violência é incompatível com a natureza de Deus. “Deus”, diz ele, “não se compraz com sangue – e agir irrazoávelmente (syn logo) é contrário à natureza de Deus. A fé nasce da alma, não do corpo. Quem quer que conduza alguém à fé precisa da habilidade de falar bem e de julgar adequadamente, sem violência ou ameaças... Para convencer uma alma razoável, não é preciso um braço poderoso, ou armas de qualquer tipo, ou qualquer outro meio de ameaçar uma pessoa de morte....”

A afirmação decisiva neste argumento contra a conversão violenta é esta: não agir de acordo com a razão é contrário à natureza de Deus. O editor, Theodore Khoury, observa: Para o Imperador, um Bizantino formado pela filosofia Grega, esta afirmação é auto-evidente. Mas para a mentalidade muçulmana é absolutamente transcendente. A Sua vontade não está limitada por nenhuma das nossas categorias, mesmo pela da racionalidade. Aqui, Khoury cita um trabalho do notável islamista Francês R. Arnaldez, que assinala que Ibn Hazn foi tão longe a ponto de afirmar que Deus não está ligado a cumprir a sua própria palavra e que nada o obriga a revelar-nos a verdade. Se fosse essa a vontade de Deus, nós seríamos inclusive obrigados a praticar a idolatria.

Neste ponto, e tanto quanto somos capazes de compreender Deus e, por isso, a concretizar a prática da religião, deparamo-nos com um dilema inevitável. Será que a convicção de que actuar irrazoavelmente contradiz a natureza de Deus é apenas uma ideia Grega, ou é sempre e intrinsecamente verdade? Acredito que podemos ver a harmonia profunda entre o que é Grego no melhor sentido da palavra e a compreensão bíblica da fé em Deus. Modificando o primeiro versículo do Livro do Génesis, o primeiro versículo de toda a Bíblia, João começou o prólogo do seu Evangelho com as palavras: “No princípio era o Verbo” – logos -. Esta é a exacta palavra usada pelo Imperador: Deus age pela palavra (logos). Logos significa razão e palavra – uma razão que é creativa e capaz de auto-comunicação, precisamente porque é razão. João diz assim a última palavra sobre o conceito de Deus e nesta palavra todos os meandros penosos e tortuosos da fé bíblica encontram o seu cume e a sua síntese. No princípio era o verbo, e o verbo era Deus, diz o Evangelista. O encontro entre a mensagem bíblica e o pensamento Grego não aconteceu por acaso. A visão de S. Paulo, que viu as estradas da Ásia bloqueadas e num sonho viu um Macedónio pedindo-lhe “Passa à Macedónia e vem ajudar-nos” (cf. Acts 16:6-10) – esta visão pode ser interpretada como uma “destilação” da necessidade intrínseca de uma reaproximação entre a fé bíblica e a pesquisa Grega.

De facto, esta reaproximação já decorria há algum tempo. O misterioso nome de Deus, revelado na sarça ardente, um nome que separa este Deus de todas as divindades com todos os seus diferentes nomes e declara simplesmente: “Eu sou”, já representa um desafio à noção de mito, em analogia próxima com a tentativa de Sócrates de vencer e transcender o mito. No Antigo Testamento, o processo que começou na sarça ardente alcançou nova maturidade no tempo do Exílio, quando o Deus de Israel, um Israel então privado da sua terra e do seu templo, foi proclamado como Deus do céu e da terra e descrito numa fórmula que ecoa nas palavras sussurradas na sarça ardente: “Eu sou”. Esta nova compreensão de Deus é acompanhada por uma espécie de iluminação que encontra a sua expressão completa no desprezo de deuses que são simples obras de mãos humanas (Sl 115, 4). Assim, apesar do conflito amargo com os governantes helénicos que almejaram acomodá-la à força aos costumes idólatras do culto dos Gregos, a fé bíblica, no período Helenístico, encontrou o melhor do pensamento Grego num nível profundo, resultando num enriquecimento mútuo evidente, especialmente na mais tardia literatura da sabedoria. Hoje, sabemos que a tradução grega do Antigo Testamento produzida em Alexandria – a tradução dos Setenta – é mais do que uma simples (e, nesse sentido, realmente menos do que satisfatória) tradução do texto Hebreu: é um testemunho textual independente e um passo distinto e importante na história da revelação, um passo que trouxe consigo um encontro genuíno entre iluminação e religião, um passo que trouxe este encontro de forma tão decisiva que permitiu o nascimento e difusão do Cristianismo. Um profundo encontro entre fé e razão tem lugar agora, um encontro entre entre iluminação genuína e religião. Do próprio coração da fé cristã e, ao mesmo tempo, do coração do pensamento Grego então juntos pela fé, Manuel II podia dizer: Não agir “segundo o ‘logos’” é contrário à natureza de Deus.

Com toda a honestidade devemos observar que na Idade Média tardia encontramos tendência teológicas separatistas desta síntese entre o espírito Grego e o espírito Cristão. Em contraste com o assim chamado intelectualismo de Agostinho e de Tomás, surgiu com Dusn Escoto um voluntarismo que, nos seus desenvolvimentos mais tardios, levou a proclamar que nós só podemos conhecer a voluntas ordinata de Deus. Para além disto, é o domínio da liberdade de Deus, em virtude da qual, Ele poderia ter feito o oposto de tudo o que Ele realmente fez. Isto dá lugar a posições que se aproximam claramente das de Ibn Hazn e podem mesmo conduzir à imagem de um Deus caprichoso, que nem sequer está comprometido com a verdade e a bondade. A transcendência e alteridade de Deus são tão exaltadas que a nossa razão, o nosso sentido de verdade e de bem, já não são um autêntico espelho de Deus. Cujas possibilidades mais profundas permanecem eternamente inatingíveis e escondidas por detrás das suas decisões reais. Opostamente, a fé da Igreja insistiu sempre que entre Deus e nós, entre o Seu eterno Espírito Criador e a nossa razão criada existe uma analogia real, em que – como o 4.º Concílio de Latrão afirmou em 1215 – a dissemelhança permanece infinitamente maior do que a semelhança, porém, não ao ponto de abolir a analogia e a sua linguagem. Deus não se torna mais divino quando nós o empurrámos para longe de nós, num voluntarismo separador e voluntarista; pelo contrário, o Deus verdadeiramente divino é o Deus que se revelou como logos e, como logos, actuou e continua a actuar amorosamente por nós. Certamente, o amor, como S. Paulo diz, “transcende” o conhecimento e, por isso, é capaz de perceber mais do que só o pensamento (cf. Ef 3:19); apesar disso continua a ser o amor de Deus que é Logos. Consequentemente, a oração cristã é, citando outra vez S. Paulo – latreía logica – oração em harmonia com a Palavra eterna e com a nossa razão (cf. Rom 12:1).

Esta reaproximação interna entre a fé bíblica e a pesquisa filosófica Grega foi um acontecimento de importância decisiva do ponto de vista da história das religiões, mas também da história universal – é um acontecimento que nos diz respeito a nós mesmo hoje. Dada esta convergência não é surpreendente que o Cristianismo, apesar das suas origens e de alguns desenvolvimentos significativos no Oriente, adquiriu finalmente o seu carácter decisivo na Europa e permanece o fundamento daquilo a que podemos chamar com justeza, Europa.

A tese de que a herança Grega criticamente purificada forma uma parte integrante da fé Cristã tem sido confrontada com uma chamada à deshelenização do Cristianismo – uma chamada que tem dominado cada vez mais as discussões teológicas a partir do início da Idade Moderna. Vistos mais de perto, podemos observar três estágios no programa de dehelenização: apesar de interligados, são claramente distintos uns dos outros nas suas motivações e objectivos.

A deshelinização emerge em primeiro lugar em ligação com os postulados da Reforma no século XVI. Olhando para a tradição da teologia escolástica, os Reformadores viram-se confrontados com um sistema de fé totalmente condicionado pela filosofia, isto é, com uma articulação da fé com um sistema estranho de pensamento. Em resultado disto, a fé não mais aparece como uma Palavra histórica viva mas como um elemento de um sistema filosófico regulador. O princípio sola scriptura, por outro lado, pensou a fé na sua forma mais pura e primordial, como originalmente se encontra na Palavra bíblica. A Metafísica apareceu como uma premissa derivada de outra origem, da qual a fé tinha que ser libertada, de modo a poder tornar-se mais ela própria. Quando Kant afirmou que precisava de pôr o pensamento de lado de modo a dar espaço à fé, levou este programa a um radicalismo que os Reformadores nunca tinham sonhado. Deste modo, ele ancorou a fé exclusivamente na razão prática, negando-lhe o acesso à realidade como um todo.

A teologia liberal dos séculos XIX e XX deslizou para um segundo estádio no processo de deshelenização, com Adolf Harnack como seu representante mais significativo. Quando eu era estudante e nos meus primeiros anos de aprendizagem, este programa era muito influente mesmo na teologia católica. Tomou como seu ponto de partida, a distinção de Pascal entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abrão, Iasaac e Jacob. Na minha lição inaugural em Bona, em 1959, tentei abordar este assunto e não tenciono repetir aqui o que disse nessa ocasião, mas simplesmente descrever, pelo menos brevemente, o que era novo neste segundo estádio de deshelenização. A ideia central de Harnack era voltar simplesmente ao homem Jesus e à sua mensagem simples, por debaixo dos acréscimos de teologia e verdadeiramente de helenização: esta mensagem simples era vista como o culminar o desenvolvimento religioso da humanidade. Jesus teria posto termo à adoração em favor da moralidade. Em última análise ele era apresentado como o pai de uma mensagem moral humanitária. Fundamentalmente, o objectivo de Harnack era voltar a trazer o Cristianismo para a harmonia com a razão moderna, libertando-o, numa forma de dizer, de elementos filosóficos e teológicos tais como a fé na divindade de Cristo e no Deus trinitário. Neste sentido, a exegese histórico-crítica do Novo Testamento, tal como ele a via, rerstaurava à teologia o seu lugar na Universidade: a teologia, para Harnack, é qualquer coisa essencialmente histórica e, portanto, estritamente científica. O que ela é capaz de dizer criticamente acerca de Jesus é, por assim dizer, uma expressão da razão prática e consequentemente pode tomar o seu lugar de direito na universidade. Por detrás deste pensamento, jaz a auto-limitação moderna da razão, expressa classicamente por Kant nas suas “Críticas”, mas ao mesmo tempo, ainda mais radicalizada pelo impacto das ciências naturais. Este conceito moderno de razão é baseado, para o dizer brevemente, numa síntese entre Platonismo (Cartesianismo) e empiricismo, uma síntese confirmada pelo sucesso da tecnologia. Por um lado pressupõe a estrutura matemática da matéria, a sua racionalidade intrínseca, que torna possível compreender como a matéria funciona e como a usar eficientemente: esta premissa básica é, por assim dizer, o elemento Platónico na compreensão moderna da natureza. Por outro lado, há uma capacidade da natureza para ser explorada para os nossos propósitos e aqui, apenas a possibilidade de verificação ou falsificação através da experimentação pode conduzir à certeza. O peso entre estes dois pólos pode, dependendo das circunstâncias, mudar de um lado para outro, a ponto de, J. Monod, um forte pensador positivista, se ter declarado um convicto platónico/cartesiano.

Isto dá origem a dois princípios cruciais para a questão que levantamos. Em primeiro lugar, só o tipo de certeza que resulta da interacção entre elementos matemáticos e empíricos pode ser considerada científica. Algo que se reclame científico pode ser confrontado com este critério. Deste modo, as ciências humanas, como a história, a psicologia, a sociologia e a filosofia, tentam conformar-se com este canon de cientificidade. Um segundo ponto, importante para as nossas reflexões, é que pela sua própria natureza este método exclui a questão de Deus, fazendo-a aparecer como não científica ou como uma questão pré-científica. Consequentemente, deparamo-nos com uma redução do alcance da ciência e da razão que precisa de ser questionada.

Voltarei a este problema mais tarde. Entretanto, deve observar-se que deste ponto de vista qualquer tentativa de manter a pretensão teológica de ser “científica” acabaria reduzindo o Cristianismo a um mero fragmento da sua identidade inicial. Mas devemos avançar: se a ciência como um todo é isto e isto só, então é o próprio homem que acaba sendo reduzido, porque as questões especificamente humanas acerca da sua origem e do seu destino, as questões levantadas pela religião e pela ética, não terão então lugar no conjunto dos objectos da razão colectiva como definida pela “ciência”, assim compreendida, e devem, por conseguinte, ser relegadas para o domínio do subjectivo. O sujeito então decide, na base das suas experiências, aquilo que ele considera adequado em matérias de religião, e a “consciência” subjectiva torna-se o único árbitro do que é ou não ético. Deste modo, contudo, a ética e a religião perdem o seu poder de criar uma comunidade e tornam-se uma matéria completamente pessoal. Este é o perigoso estado de coisas da humanidade, tal como vemos a partir das perturbadoras patologias da religião e da razão que irrompem necessariamente quando a razão é de tal modo reduzida que as questões de religião e ética já não lhe dizem respeito. As tentativas de construir uma ética a partir das regras da evolução ou da psicologia e sociologia, acabam por se mostrar simplesmente desadequadas.

Antes de retirar as conclusões a que tudo isto conduz, devo referir brevemente o terceiro estádio de deshelenização, que está em progresso. À luz da nossa experiência com o pluralismo cultural, diz-se frequentemente hoje que a síntese com o Helenismo conseguida na Igreja inicial era uma inculturação preliminar que não deveria ser obrigatória para as outras culturas. Diz-se destas últimas que têm o direito de regressar à mensagem simples do Novo testamento, anterior àquela inculturação, de modo a poderem inculturar de novo de cada modo particular correspondente ao ambiente em que se encontram. Esta tese não é apenas falsa; é grosseira e imprecisa. O Novo Testamento foi escrito em Grego e traz consigo a impressão do espírito Grego, que já tinha atingido a maturidade enquanto se desenvolvia o Antigo Testamento. É verdade que há elementos de verdade na evolução da Igreja inicial que não têm que ser integrados em todas as culturas. Contudo, as decisões fundamentais tomadas acerca da relação entre fé e o uso da razão humana são parte integrante da mesma fé; são desenvolvimentos consonantes com a natureza da própria fé.

E chego assim à minha conclusão. Esta tentativa, a pinceladas largas, de uma crítica da razão moderna por dentro, que não tem nada a ver com recuar no tempo anterior ao Iluminismo ou rejeitar as conquistas da idade moderna. Os aspectos positivos da modernidade devem ser reconhecidos sem reservas: estamos todos gratos pelas maravilhosas possibilidades que foram abertas à humanidade e ao progresso que nos foi concedido. O ethos científico, é, para além disso, - como mencionou o Magnífico Reitor – a vontade de obedecer à verdade e, deste modo, incorpora uma atitude que pertence às decisões essenciais do espírito do Cristianismo. A intenção aqui não é de entrincheiramento ou de criticismo negativo, mas de alargamento do nosso conceito de razão e da sua aplicação. Ao mesmo tempo que nos alegramos com as novas possibilidades que se abrem à humanidade, também vemos os perigos que decorrem destas possibilidades e devemos perguntarmo-nos como os poderemos ultrapassar. Seremos bem sucedidos só se a razão e a fé se juntarem de uma forma nova, se ultrapassarmos a auto-imposta limitação da razão ao empiricamente verificável, e se uma vez mais libertarmos os seus vastos horizontes. Neste sentido, a teologia tem lugar na universidade e dentro do largo leque de diálogo entre as ciências, não apenas como uma disciplina histórica e uma das ciências humanas, mas precisamente como teologia, como inquérito sobre a racionalidade da fé.

Só assim nos tornaremos capazes desse diálogo genuíno entre culturas e religiões tão urgentemente necessário hoje. No mundo ocidental domina largamente a opinião de que só a razão positivista e as formas de filosofia nela baseadas são válidas universalmente. Contudo, as culturas do mundo profundamente religiosas vêm esta exclusão do divino da universalidade da razão como um ataque às suas mais profundas convicções. Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião para o âmbito das subculturas é incapaz de se inserir num diálogo de culturas. Ao mesmo tempo, como tentei mostrar, a razão científica moderna com o seu elemento intrinsecamente Platónico traz consigo uma questão que aponta para além de si própria e para além das possibilidades da sua metodologia. A razão científica moderna tem, muito simplesmente, que aceitar a estrutura racional da matéria e a correspondência entre o nosso espírito e as estruturas racionais prevalecentes na natureza como um dado, na qual a sua metodologia tem que ser fundada. Contudo, a questão porque isto tem que ser assim é uma verdadeira questão que tem que ser redireccionada pelas ciências naturais para outros modos e planos de pensamento – para a filosofia e a teologia. Porque a filosofia e, apesar de em modo diferente, a teologia, escutando as grandes experiências e descobertas das tradições religiosas da humanidade, e as da fé cristã em particular, é uma fonte de conhecimento, e ignorá-lo seria uma restrição inaceitável do nosso ouvir e responder. Aqui lembro-me de algo que Sócrates disse a Phaedo. Nas suas primeiras conversas, tinham surgido muitas opiniões filosóficas falsas e então Sócrates diz:”Seria facilmente compreensível que alguém ficasse tão aborrecido com todas estas noções a ponto de, para o resto da sua vida, desprezar e troçar de toda a conversa acerca do ser – mas deste modo ficaria privado da verdade da existência e sofreria uma grande perda”. O Ocidente tem, desde há muito tempo, sido ameaçado por esta aversão às questões que suportam a sua racionalidade e daqui para a frente só pode ser ainda mais prejudicado. A coragem de incluir todo o âmbito da razão, e não a negação da sua grandeza: é este o programa com que uma teologia enraizada na fé bíblica entra nos debates do nosso tempo. “Não agir razoavelmente, não agir com logos, é contrário à natureza de Deus” disse Manuel II, de acordo com a sua compreensão cristã de Deus, em resposta ao seu interlocutor persa. É a este grande logos, a este respiro da razão, que convidamos os nossos parceiros no diálogo de culturas. Redescobri-lo constantemente é a grande tarefa da universidade.

Aula Magna da Universidade de Regensburg, 12 de Setembro de 2006

João Titta Maurício disse...

Já agora também fica...

O Papa e o islão
por Vasco Pulido Valente

Não deve haver académico que, lá no fundo, não tenha um especial fraquinho pelo Papa Bento XVI. Afinal, ele faz parte da corporação e, mais, foi durante muito tempo um motivo de orgulho para a corporação. Fala o dialecto da seita, escreve no dialecto da seita e, se não pensa como a seita, pensa segundo as regras da seita. Só que é Papa e que, sendo Papa, de quando em quando, esquece o mundo cá de fora e reverte ao seu velho papel de universitário. O "escândalo" de Ratisbona não passa disto. Bento XVI, querendo explicar a irracionalidade da conversão pela violência, citou o imperador Manuel II Paleólogo. Num diálogo com um persa, Paleólogo dissera: «Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo. Não encontrarás senão coisas demoníacas e desumanas, tal como o mandamento de defender pela espada a fé que ele pregava».
O mais preliminar assistente de Literatura, História, Filosofia ou Teologia percebe logo três coisas. Primeira, que o Papa não dá o imperador Paleólogo como um intérprete autorizado da religião muçulmana, mas como um como um opositor inteligente à perseguição religiosa. Segunda, que o Papa não esqueceu as perseguições da sua própria Igreja e que usou o imperador por conveniência ilustrativa da desordem moderna. E, terceiro, como o título e o resto da conferência comprovam, que Ratzinger não estava interessado em "atacar" ninguém, estava interessado na dualidade da fé e da razão. Infelizmente, a "rua" islâmica não é o público letrado da Universidade de Ratisbona e começou rapidamente a usual campanha de ódio contra o Bento XVI, que de toda a evidência o deixou estupefacto.
O papa já lamentou o equívoco, mas não pediu desculpa. Não podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignorância, nem pelo teor geral da conferência de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a fé não é separável da razão e que agir irracionalmente "contraria" a natureza de Deus. Não vale a pena entrar nas complexidades do assunto. Basta lembrar que desde o princípio (desde Orígenes, por exemplo) se construiu sobre a fé cristão um dos mais sublimes monumentos à razão humana e que o Ocidente, apesar da "Europa", não existiria sem ele. A fé muçulmana não produziu nada de remotamente comparável e, durante quinze séculos, sustentou uma civilização frustre e parada. A conferência de Ratisbona reafirmou a essência do cristianismo. Se o islão se ofendeu, pior para ele.

João Titta Maurício disse...

E porque não, mais esta...

Carta aos amigos muçulmanos
por Francisco José Viegas, Escritor

Caros amigos,
Sei que a figura do Papa não é insignificante; o que o chefe dos católicos diz adquire um peso que ultrapassa os limites do mundo católico. O vosso comunicado sobre as declarações do Papa é cauteloso e inteligente: reconheceis a tristeza que causou entre os muçulmanos a conferência de Bento XVI (era um texto académico) mas admitis que, bem vistas as coisas, não era caso para tanta efervescência. Lamentais que o Papa tenha dito o que disse nestas circunstâncias («o Papa foi decerto muito infeliz na sua escolha, sobretudo nos tempos tão conturbados em que vivemos»).

Compreendo as "circunstâncias", mas não a "ladainha do queixume". Se concordais em que não «parece que fosse intenção expressa do Papa Bento XVI atacar o Islão e os muçulmanos, sobretudo atendo à forma como termina, incitando ao uso da razão no diálogo de culturas», não compreendo a reacção de muitos dos vossos amigos e companheiros de fé, para além daqueles que - um pouco por todo o lado, no Médio e no Extremo Oriente, em Londres e em Paris - são companheiros da vossa fé mas não serão, certamente, vossos amigos. Pessoalmente, achei pertinente a conferência do Papa na Universidade de Ratisbona; estimulante, como agora se diz - e feliz na forma como deixa esse apelo sensato ao uso da razão.

Portanto, não compreendo como esse apelo (com o qual concordais) pode constituir, nas vossas palavras, um "infeliz exemplo". Infelizes exemplos encontramo-los diariamente noutros lugares e nestas mesmas "circunstâncias", causando devastação, morte e perseguição religiosa.

Sabeis que não sou um homem de fé, mas tenho argumentos a meu favor no diálogo com o Islão - não com o terrorismo, com os fundamentalismos ou com as guerrilhas que só falam através das armas e das bombas, do vosso lado e do meu lado. Se vos recordais, foi pela minha mão que, em muitos anos de relações entre as comunidades judaica e muçulmana (não apenas de Portugal), um rabino entrou pela primeira vez na vossa mesquita em Lisboa; faltava ainda algum tempo para o Ramadão mas era véspera de Sukot no calendário judaico e foi também comigo que pela primeira vez o xeique David entrou na sinagoga Shaare Tikvah, em Lisboa. O diálogo, que alguns pedem consoante as circunstâncias e os interesses políticos de momento, não pode existir se não se praticar. Não podeis furtar-vos ao diálogo com o argumento de que os argumentos dos outros vos ofendem; muitas vezes, os outros ("os outros" do meu lado) querem apenas compreender. Temos certamente posições diferentes sobre o riso, sobre a condescendência ou a intransigência diante dos dogmas, sobre os direitos humanos, sobre a liberdade e sobre a natureza e os direitos da fé religiosa.

Ao contrário do que se diz correntemente em "encontros ecuménicos", caros amigos, penso que, ao longo dos tempos, a religião tem sido um factor de guerra mais do que elemento de paz. Provavelmente, atravessamos um desses momentos, com erros de ambos os lados da barreira em que nos colocámos e que não é unicamente religiosa. As três principais religiões do Livro, como sabeis, não podem invocar um plano de inocência total ou até parcial em matéria de respeito pelos outros, de tolerância e de justiça. É o que menos me preocupa. Falemos como homens, uns diante dos outros.

Frequentemente vos ouço falar de "ofensas". Compreendo o princípio mas não posso abdicar daquilo que sou e somos prezamos a liberdade, o diálogo e a tolerância. Defenderei os vossos direitos. Mas não estou em condições de vigiar permanentemente cada frase para ver até que ponto vos ofende a maneira como citamos um autor, um versículo ou uma data. O Papa falou; não vos indigneis. Ripostai. Falai. Mas dizei-me se achais bem que queimem as ruas por causa de uma frase.

João Titta Maurício disse...

Concluo com esta...

A natureza da tolerância no Islão

por Roberto de Mattei
Professor Catedrático de História Moderna na Universidade de Cassino (Itália)

Nas terras conquistadas pelo Islão, a opção deixada aos vencidos é a conversão ou a morte. Para os adeptos da religião dos "Livros Santos", cristãos e hebreus, mas também sabeítas e zoroastristas, definidos como "gente do Livro" (ahl el-Kitab) ou "gente do Pacto" (ahl el-dhimma), está previsto um estatuto privilegiado desde que aceitem submeter-se ao Islão. Tal estatuto jurídico de inferioridade, chamado dhimma, é simbolizado pelo pagamento de uma taxa pessoal que indica o reconhecimento público da subordinação ao Islão.

O pacto de Omar, primeiro sucessor do profeta, introduziu o distintivo para os protegidos: castanho para os madeístas, azul para os cristãos, amarelo para os hebreus e, confinando os dhimmos em bairros especiais, antecipa assim o aparecimento da prática dos guetos.

Os dhimmos, desde que aceitem submeter-se ao Islão, são integrados na comunidade islâmica, mas na condição de uma pesada sujeição jurídica. São excluídos dos cargos públicos e obrigados a cumprir os imperativos sociais da sharia; o proselitismo religioso é punido com a pena de morte, mas os dhimmos devem aceitar o proselitismo dos muçulmanos, mesmo nas suas igrejas ou sinagogas. Por outro lado, os dhimmos não podem construir edifícios mais altos do que os dos muçulmanos, devem proceder aos funerais dos seus mortos em segredo, sem prantos nem lamentos; é-lhes vedado tocar sinos, expor qualquer objecto de culto e proclamar, diante de um muçulmano, as crenças cristãs. Um muçulmano pode casar-se com uma mulher dhimma, mas um dhimmo não pode casar-se com uma muçulmana; a criança nascida de um casamento misto é sempre muçulmana. A sanção que pune os muçulmanos culpados de delitos é atenuada se a vítima for um dhimmo. Os não-muçulmanos nunca podem ser testemunhas contra muçulmanos, sendo o seu juramento inaceitável. Tal rejeição funda-se, segundo os hadith, sobre a natureza perversa e mentirosa dos "infiéis" que insistem deliberadamente em negar a superioridade do Islão. Pela mesma razão, um muçulmano, mesmo que seja culpado, não pode ser condenado à morte, se for acusado por um infiel. Pelo contrário, aconteceu diversas vezes que houve dhimmos condenados à morte no lugar de muçulmanos culpados.

A rejeição das testemunhas dhimmas é particularmente grave quando elas, caso não raro, são acusadas de ter "blasfemado" contra Maomé, delito punido com a pena de morte. Os dhimmos, incapacitados de refutar em juízo as acusações dos muçulmanos, encontram-se, muitas vezes constrangidos a aceitar o Islão, para conseguirem salvar a vida.

O pagamento do tributo a que estão sujeitos os dhimmos, chamado kharadj, é justificado pelo princípio segundo o qual a terra subtraída pelo Islão aos "infiéis" é considerada como pertencente, por direito, à comunidade muçulmana. Por força deste princípio, qualquer proprietário é reduzido à condição de um tributário que detém a sua terra na qualidade de mero usufrutuário por concessão da umma. A taxa vem carregada de um simbolismo sagrado e bélico: é o direito inalienável atribuído por Alá aos vencedores sobre o solo inimigo. Além da kharadj, os dhimmos são obrigados a pagar outro imposto, a djizya, que lhes é imposta no decurso de uma cerimónia humilhante: enquanto paga, o dhimmo é golpeado na cabeça ou na nuca.

É esta a natureza da tolerância no Islão.

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Fonte:
Roberto de Mattei - Guerra Justa, Guerra Santa - Ensaio sobre as Cruzadas, a Jihad islâmica e a tolerância moderna
Livraria Civilização Editora, Porto (2002), pp. 65-68

Transcrição autorizada pelo Autor.

MRelvas disse...

Digno de ser lido com muita calma e atenção,mas pelo que li (já tinha lido o Francisco José Viegas)e alguns extratos do discurso de Sua Santidade o Papa Bento XVI,mas confesso caro João,serem estes seus comentários dignos de estudo...Concordo plenamente...nada tenho a acrescentar!
Já agora estuda sociologia,ou teologia?

Um abraço!
MR

João Titta Maurício disse...

Terminava com mas uns comentários pessoais, à guisa de "resposta" a outros aqui apresentados.

Senhor Rui Tulik,
Pelo que percebo, acha que Bento XVI ou não é Papa ou então que deveria utilizar outro título. Infelizmente, os mais de 1.000.000.000 de crentes... e a esmagadora maioria dos crentes noutras religiões e mesmo os não crentes aceitam que o Bispo de Roma é o Chefe da Igreja Católica.
Quanto ao mais que referiu, leia o texto e verifique a verdade. Bem sei que uma das coisas mais difíceis de fazer é adoptar uma postura de objectividade... quando a subjectividade nos condicciona! Mas é para isso que há o perdão!
Quanto ao comentário sobre a regressão da Igreja... acho engraçado como se fala de fora sobre o que vai lá dentro! E mais engraçado é quando recordamos textos "progressitas" (dos finais dos anos 60 princípio dos 70) onde Joseph Ratzinger era tido como "um dos deles". Agora... é o que se lê! Se me permite o desafio, concretize em que aspectos se fundamenta a sua afirmação «este senhor não tem caractér (sic) para vir fazer estes e outros comentários pois é muito triste ver a igreja catóçica (sic) regredir uns bons anos com a ascenção (?!?) deste senhor à acdeira (sic) de Pedro».
Se o que o indigna é os sapatos que SS usa... é coisa pouca... porque mesquinha! Além disso, como bem sabe (e se não sabe poderia e deveria), os sapatos usados pelo Papa (que por acaso os usa por motivos de saúde) são do Papa e não de Joseph Ratzinger. Por isso, o voto de pobreza está cumprdo. Ou será que deveremos pedri pena de excumunhão para os frades da Ordem Franciscana Capuchinha da minha paróquia porque usam um portátil do último modelo... bem melhor que este PC da idade da pedra em que escrevo este comentário?!? Isto para não falar de term adquirido um moderno datashow que é um mimo para a missa?!?
Demagogia ou igrejofobia?!?
FInalmente... informação que desconhecia e que estou interessado em confirmar: tem a certeza (e qual a fundamentação?!?) que 6 anos é o «tempo mínimo de mandato na cadeira de Pedro»!!! Nem sabia que existia!?! E se, queira Deus que não, SS entretanto falecer? Será punido por incumprimento do mandato?!? Explique lá... que estou com imensa curiosidade!

Cumprimentos,


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Caro animadverto,
Sobre o que alguns dos nossos amigos dizem... eu tenho um que quando está com os copos, repete o que eu digo como se fosse a últma novidade provinda do seu cérebro... Mas há quem diga que "in vino veritas"... quem sabe!?!

Em primeiro lugar, até compreendo aquilo que o seu Amigo disse (ainda que não concorde... se quiser dir-lhe-ei porquê). Agora, por obediência ao politicamente correcto (ou para disfarçar o ataque à Igreja Católica com um (suposto) disparar em todas as direcções, não colhe, pois só a Igreja Católica tem "governo central" (se assim lhe quiser chamar) - ainda que outras denominações cristãs hajam sido a voz do poder político (como o foram alguns sacerdotes - e não só - da própria Igreja Católica).
E prova disso é o seu comentário sobre o Sacro Impéro Romano-Germano. Sugiro, permita-mo com cordialidade, que se debruce um pouco mais sobre o assunto. Primeiro, não havia um rei alemão... mas uma infinidade deles... e só alguns podiam aspirar ao trono imperial! Isso era consequência da legitimidade então detida e a posição adoptada pelo Bispo de Roma quando as últimas invasões bárbaras cairam sobre a "cidade eterna".
Já agora, permita-me que lhe peça que concretize a vaga insinuação (que adivinho, mas que não me atrevo a rebater sem perceber a sua posição) que se deduzem das palavras: «Como se pode exceder em religiões que oferecem bíblias e corãos em troca de terras, e que regularizam o homicídio por ordem de políticos dando justificação à matança ao dizerem que é desígnio de algum Deus? Em nada. A religião é uma política tão bem delineada que os mártires islâmicos e os inquisidores cristãos não são mais do que mera propaganda político-religiosa».

Aguardo também notícias.
Eu continuo cm cada vez mais vontade de viver na Fé, seguindo o Caminho, que me dá a conhecer a Verdade e me conduz à Vida Eterna.

Cumprimentos,


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Senhor Ulisses Campos,
Creio que não será novidade para si, mas os pára-raios eram colocados no alto dos campanários não para proteger o templo mas, por serem o ponto mais alto das povoações e assim - num serviço que a Igreja prestava à comunidade - protegerem as casas na imediação da paróquia. Aliás, na minha paróquia, porque o templo da Igreja Católica foi construído já a povoação existia, aquele não tem pára-raios! Será excesso de Fé?!?

Ah... Mas saiba que Zecas Afonsos, Catarinas Eufémias, Soeiros Pereiras Gomes e outros que tais (de ve estar para surgir uma leva de Álvaros Cunhais, e outros que tais) é coisa que por cá não falta!

Eu, em compensação, apesar da manipulação nas escolas e nas colectividades, da perseguição e de outras vilanias que são guardadas para os não-crentes na virtudes da bandeira vermelhiunha (mai-la estrelinha a encimar a foicezinha e o martelinho), apesar de tudo isso, tenho fé que poderá haver respeito pela Fé... pela verdadeira Fé... não a fézinha ou a fezada que consta de panfletos de propaganda. Lendo compreende-se. Lendo conhece-se. Lendo aprende-se a crer! Dedique-se a Santo Agostinho... é um bom começo!

Espero que compreenda a minha resposta: não é para ofender... é apenas para rebater e contribuir para um debate que muitos falam, falam, falam, falam... e eu não os vejo a perceber nada... fico chateado, é claro que fico chateado!... Ahh

Cumprimentos,

atirador do momento - Sintra disse...

Já me tinham falado, para vir visitar Voz do Povo, parabéns, este blogue está dinâmico! Bom trabalho.
Em relação ao exposto, só quero fazer um pequeno comentário, o sr.João Titta é de facto um acérrimo defensor de sua santidade, demontra ter conhecimentos para além do senso comum e em defesa da Igreja, parce-me, que merece nota 10 (escala 0/10)... gostei, mas muito extenso .

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Atribuído Pela nossa querida amiga e colaboradora deste espaço, a Marcela Isabel Silveira. Em meu nome, e dos nossos colaboradores, OBRIGADO.

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