06 outubro 2006

CULPADA

Devíamos ser como os rios quando nascem. Começam com uma pequena gota de água. Depois, gota após gota, até se converterem em grandes caminhos de água precipitando-se por imensas cascatas. Mas ser humilde não é fácil. Estas foram as últims palavras que disse o meu professor antes de eu adormecer; de fechar os olhos para sempre.
As discussões, muitas vezes, implicam com uma palavra inocente, mas com este professor, todas as palavras tinham interesse. Falava-se da corte francesa: todas as mulheres eram resolutas. Flava-se do Marxismo... era muito importante, porque os homens eram muito interessados nessa teoria e na forma de pô-la em prática.
Em que texto se menciona uma ideóloga famosa por teorizar sobre marxismo? - perguntava-nos. Uma menina respondeu, conheço de lá Pasionária em Espanha.
- Ela não teorizava, nada! Ela foi, somente, uma seguidora da Social-democracia - contestava as desigualdades sociais e políticas.
Não era a primeira vez que esta situação surgia, estivéssemos dentro ou fora da escola. Nao importava o local, a todo o momento se falava da maldita propensão de ridicularizar as mulheres. Conhecendo-a, não me atrevi a participar e, sem vontade dentro de mim, tremendo toda, ansiava dizer-lhe: atrevido! Porque razão és contra as mulheres?
Passados seis meses houve outro problema quando afirmou:
Actualmente, não há mulheres filósofas. Um companheiro, quase a gritar, disse: Simone de Beauvoir, por sia obra "O Segundi Sexo", em 1949. Éramos um grupo de estudantes seleccionados para uma nova carreira em Humanidades, fiquei muito contente com aquela resposta. Sem querer dar a perceber, o professor contestou com um sorriso amarelo: «actualmente». Fez-se silêncio na sala de aula. A humilhação foi repartida, cada um tomou o seu partido. Eu senti que a maioria tinha pensado como eu. Todos! Somos pascácios, pensei.
Tinha medo de expor-me. Devia ser cautelosa. Pois com ele, nunca se sabia. Apesar de tudo, levantei a mão e disse-lhe, olhando-o fixamente.
Pois as actuais filósofas não são tão destacadas como "fulana tal" que entre as suas obras tem Uma Introdução à Lógica Simbólica e menciona Beaudoir - todo o auditório atendeu com leves múrmurios de aceitação -, mas há mulheres fazendo filosofia. Inclusivamente, há escritores que as suas obras tocam em temas filosóficos de grande importância, como Margarite Yourcenar. É inegável que na sua obra Opus Nigrum se encontram temas relacionados com o que fazer filosófico - atrevi-me a dizer: Por exemplo, "La Conversacion en Innsbruk", a autora apresenta uma oportunidade de discussão quando Zenon, o protagonista, disse: "A força do orador com os nossos dentes na curteza das coisas, acabaremos por encontrar a razão oculta das afinidades e os desacordos. Um broca mecânica ou uma bobine que trabalha sozinha, não significa muito e, sem nos apercebermos, essa pequena cadeia de pequenos descobrimentos podia levar-nos mais longe do que foram Magalhães e Américo Vespúcio nas suas viagens". Ali se falava de ser a última coisa, sim ou não? Neste parágrafo - prosseguiu com cautela, mas com veemente convicção - há materialismo... há uma racionalidade psicológica. Há um modo de entender a realidade.
Lança-me um olhar que tudo connosco vai muito bem e, como as mulheres bíblicas, espero ser santificada.

david santos contos

2 comentários:

MRelvas disse...

"Vespúcios nas suas viagens"...fumo na máquina do David...

Belo texto meu amigo.Quem sabe,sabe...

Um abraço e deixe lá o outro texto!

Mário relvas

Mário Margaride disse...

Associo-me a esta homenagem a Simone de Beauvoir. Um vulto da cultura francesa, e um paradigma da filosofia contemporânia.
Um abraço Mário.

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Atribuído Pela nossa querida amiga e colaboradora deste espaço, a Marcela Isabel Silveira. Em meu nome, e dos nossos colaboradores, OBRIGADO.

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